Versos Portuguese Bernardo Guimarães Prelúdio

Portuguese poem

Prelúdio

by (1825–1884)

Listen in the reader

N’este alaúde, que a saudade afina, Apraz-me ás vezes descantar lembranças De um tempo mais ditoso;

De um tempo em que entre sonhos de ventura Minha alma repousava adormecida Nos braços da esperança.

Eu amo essas lembranças, como o cysne Ama seu lago azul, ou como a pomba Do bosque as sombras ama.

Eu amo essas lembranças; deixão n’alma Um que de vago e triste, que mitiga Da vida os amargores.

Assim de um bello dia, que esvaío-se, Longo tempo nas margens do occidente Repousa a luz saudosa.

Eu amo essas lembranças; são grinaldas Que o prazer desfolhou, murchas reliquias De esplendido festim;

Tristes flôres sem viço! — mas um resto Inda conservão do suave aroma Que outr’ora enfeitiçou-nos.

Quando o presente corre arido e triste, E no céo do porvir pairão sinistras As nuvens da incerteza,

Só no passado doce abrigo achamos E nos apraz fitar saudosos olhos Na senda decorrida;

Assim de novo um pouco se respira Uma aura das venturas já fruidas, Assim revive ainda

O coração que angustias já murchárão, Bem como a flôr ceiada em vasos d’agua Revive alguns instantes.