Versos Portuguese Bernardo Guimarães O destino do vate

Portuguese poem

O destino do vate

by (1825–1884)

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A’ MEMORIA DE F. DUTRA E MELLO

Onde foi elle — em meio assim deixando Quebrado o accento da canção sublime, Que apenas encetára? Onde foi elle? em que felizes margens Desprende agora a voz harmoniosa? Estranho ao mundo, n’elle definhava Qual flor, qu’entre fraguedos Em solo ingrato langue esmorecida: Uma nuvem perenne de tristeza O rosto lhe ensombrava — parecia Seraphim exilado sobre a terra, Da harpa divina tenteando as cordas P’ra mitigar do exilio os dissabores.

Triste poeta, que sinistra idéa Pende-te assim a fronte empallecida? Que dôr fatal ao tumulo te arrasta Inda no viço de teus bellos annos? Que accento tão magoado, Que lacera, que dóe no seio d’alma, Exhala a tua lyra, Funereo como um écho dos sepulcros? Tua viagem começaste apenas, E eis que já de fadiga extenuado

C’o desanimo n’alma te reclinas A’ margem do caminho?!

Olha, ó poeta, como a natureza Em torno te desdobra Sorrindo o seu painel cheio de encantos: Eis um vasto horizonte, um céo sereno, Serras, cascatas, ondeantes selvas, Rios, collinas, campos de esmeralda, Aqui valles de amor, vergeis floridos, De frescas sombras perfumado asylo, Além erguendo a voz ameaçadora O mar, como um leão rugindo ao longe, Alli dos montes as gigantes fórmas Com as nuvens do céo a confundir-se, Desenhando-se em longes vaporosos. Donoso quadro, que me arrouba os olhos, N’alma acordando inspirações saudosas! Tudo é belleza, amor, tudo harmonia, Tudo a viver convida, Vive, ó poeta, e canta a natureza.

Nas sendas da existencia As flôres do prazer ledas vicejão;

A’ mesa do festim vem pois sentar te, Sob uma corôa de virentes rosas Vem esconder os prematuros sulcos, Vestigios tristes de vigilias longas, De austero meditar, que te ficárào Na larga fronte impressos. Dissipe-se aos sorrisos da belleza Essa tristeza, que te abafa a mente. Ama, ó poeta, e o mundo que a teus olhos Um deserto parece arido e feio, Sorrir-se-ha, qual horto de delicias: Vive e canta os amores.

Mas se a dôr é partilha de tua alma, Se concebeste tedio de teus dias Volvidos no infortunio: Que importa, ó vate; vê pura e donosa Sorrir-se a tua estrella No encantado horizonte do futuro. Vive e soffre, que a dôr co’a vida passa, Emquanto a gloria em seu fulgor perenne No limiar do porvir teu nome aguarda Para envial-o ás gerações vindouras. E então mais bellos brilharáõ teus louros

Entrançados co’a palma do martyrio; Vive, ó poeta, e canta para a gloria.

Porém — respeito a essa dôr sublime — Sello gravado pela mão divina Sobre a fronte do genio, Não forão para os risos destinados Esses labios severos, d’onde emana A linguagem dos céos em igneos versos; Longe d’elle a vã turba dos prazeres, Longe os do mundo passageiros gozos, Breves flôres de um dia, que fenecem Da sorte ao menor sopro. Não, — não foi das paixões o bafo ardente Que os ledos risos lhe crestou nos labios; A tormenta da vida ao longe passa, E não ousa turbar com seus rugidos A paz d’essa alma angelica e serena, Cujos tão castos ideaes affectos Só pelos céos adejão. Alentado sómente da esperança Contempla resignado As sombras melancolicas, qu’enlutâo O horizonte da vida; — mas vê n’ellas

Um crepusculo breve, que antecede O formoso clarão da aurora eterna. Quando vem pois sua hora derradeira, Sauda sem pavor a muda campa, E sobre o leito do eternal repouso Tranquillo se reclina. Oh! não turbeis os seus celestes sonhos; Deixai correr nas sombras do mysterio Seus tristes dias: — triste é seu destino, Como o luzir de moribunda estrella Em céo caliginoso. Tal é seu fado; — o anjo d’harmonia C’uma das mãos lhe entrega a lyra d’ouro, N’outra lhe estende o calix da amargura.

Bem como o incenso, que só verte aromas, Quando se queima, e ardendo se evapora, Assim do vate a mente Aquecida nas fragoas do infortunio, Na dôr bebendo audacia e força nova Mais pura ao céo se arrouba, e accentos vibra De insolita harmonia. Sim — não turbeis os seus celestes sonhos, Deixai, deixai sua alma isenta alar-se

Sobre as azas do extase divino, Deixai-a, que adejando pelo empyrio Vá aquecer-se ao seio do infinito, E ao céo roubar segredos de harmonia, Que sonorosos troem D’harpa sublime nas mellifluas cordas.

Mas eil-a já quebrada, — Eil-a sem voz suspensa sobre um tumulo, Essa harpa mysteriosa, qu’inda ha pouco Nos embalava ao som de endeixas tristes Repassadas de amor e de saudade. Ninguem lhe ouvirá mais um só harpejo, Que a ferrea mão da morte Pousou, sobre ella, e lhe abafou p’ra sempre A voz das aureas cordas. Porém, ó Dutra, emquanto lá no elysio Saciando tua alma nas enchentes Do amor e da belleza, entre os effluvios De perennaes delicias, E unido ao côro dos celestes bardos, O fogo teu derramas Aos pés de Jehovah em gratos hymnos, A gloria tua, teus eternos cantos,

Quebrando a mudez funebre das campas E as leis do frio olvido, com teu nome Através do porvir irão traçando Um sulco luminoso.