Versos Portuguese Bernardo Guimarães Nostalgia

Portuguese poem

Nostalgia

by (1825–1884)

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Ah! por que vindes me sorrir agora, De meus campos natais doces lembranças, E nest'alma, que em vão por eles chora, Reavivar as mortas esperanças? Por que me trazer à mente esmorecida Miragens da ventura já perdida?...

Ah! por que vindes pelas noites minhas, Veladas na agonia, De sonhos vãos encher-me a fantasia, Como bando de alegres avezinhas, Que vêm pousar cantando nos gradis Do cárcere onde geme um infeliz?

Por essas longas margens desabridas, Por onde o mar monótono esbraveja, A minha vista adeja Demandando as saudosas avenidas, Que além dos horizontes O rumo indicam de meus pátrios montes.

A nuvem que desponta aurirrosada Por trás daquela erguida serrania, E a viração macia, Que de lá vem de aromas saturada, A vaga que com brando rumorejo Na branca praia deposita um beijo;

São mensageiros que de lá me envia O meu país amado; São vozes que à porfia Me dizem com acento entrecortado: "Volta aos teus montes, volta aos lares teus, E à terra estranha dize eterno adeus.

"Vai; - lá sorri-te bela a natureza Trajada de esplendores Nessas campinas de sem par beleza, Onde nunca desbotam-se os verdores, E num só ramo a um tempo o botão cresce, Abre-se a flor, e o fruto amadurece.

"Lá inda rolam trépidos ribeiros As ondas cristalinas Por entre longas filas de coqueiros, Que se perdem ao longe nas campinas; E as selvas com seus tetos de verdura Inda te ofertam sombras e frescura.

"Vem; - lá te aguardam sombras benfazejas E plácidos asilos, Onde teus dias volverás tranqüilos No regaço da paz, que tanto almejas; E a lira suspirosa Farás ouvir na pátria deleitosa.

"E ao teu cantar as virgens mais formosas Sentirão palpitar seus corações, E com as mãos mimosas, De um festim entre as ledas libações, Bem como outrora ao velho Anacreonte, De murta e rosa hão de cingir-te a fronte.

"E quando alfim da morte a mão gelada Estender sobre o leito funerário Teu frio corpo, vítima do nada, Hão de seguir-te ao campo mortuario Gemidos de saudade, E lágrimas sinceras de amizade.

"Ama a pomba a floresta em que vagueia, E em que fabrica o ninho; E sem perder de vistas a colmeia A abelha colhe no vergel vizinho No âmago das flores O suco necessário a seus labores.

"A águia, que com vôos alterosos Perlustra toda a esfera, Volta constante aos píncaros rugosos, Onde entre os filhos o repouso a espera; E nem mesmo a feroz suçuapara De seu covil os antros desampara.

"Somente o homem, qual se sobre o dorso Com aguilhão constante o perseguira A fúria do remorso, De país em país inquieto gira, Transpõe os mares, sotopõe os montes, E acha estreitos da terra os horizontes!

"Oh! deixa de correr terras e mares, Suspende enfim teus vagabundos passos, E vem passar à sombra de teus lares Esses, que inda terás, dias escassos. Sim! volta aos campos teus, E à terra estranha dize eterno adeus."

E estas tristes vozes dentro d'alma Vêm ecoar-me em minha soledade, E sem ao pensamento dar-me calma Me fazem mais sentir cruel distância, E avivam-me a saudade Do formoso país de minha infância...

Mas, que me importa agora em que paragens Consumirei o resto de meus dias, E qual será a lajem Que terá de guardar-me as cinzas frias, Se a vida e a morte é tudo um breve sonho Que se apaga no túmulo medonho?...

Que irei fazer no declinar dos anos Nessas plagas saudosas que hei deixado?... Irei do tempo contemplar os danos, E chorar sobre as ruínas de um passado Que nunca, ah! nunca mais há de luzir Pelo sombrio céu de meu porvir.

Meu nome encontrarei quase esquecido Pela força do tempo e da distância, E quase estranho à terra em que hei nascido; Os amigos fiéis de minha infância Mortos uns acharei, outros dispersos Por países longínquos e diversos.

E lá me ocorrerão agras lembranças Do tempo em que cansei meu pensamento Com sonhos vãos, com vagas esperanças, E saudarei com triste desalento O lar paterno, - ninho abandonado, Talvez de estranhos donos habitado.

Irei verter em muita sepultura De dor e de saudade estéril pranto, E lastimando tanta desventura Da lira exalarei funéreo canto, Té que também por entre esses destroços Um lugar acharão meus frios ossos.

Sim! tudo isso é verdade! mas que importa! Dentro em meu coração mais alto clama A voz que me ressoa a toda hora, E ao meu pais me chama, Mais terna que a da rola, que à tardinha Chamando o esposo ao ninho se encaminha.

Campos de minha infância, oh! quem me dera Ir descansar de meus tristes errores Em vosso seio, embora a primavera Não junque mais de flores De minha vida as sendas desoladas, Hoje só de ruínas povoadas.

Oh! quem me dera respirar os ares De minhas solidões, E ao suave rumor de seus palmares Mesclar minhas canções, Embora lá depare só lembranças De minhas malogradas esperanças...

Brisas do mar, transponde as altas serras, Ide adejar no meu país amado, E a essas longes terras, De que hoje me separa um cruel fado, Levai nestas endeixas Minhas saudades, minhas tristes queixas.

Rio de Janeiro, 1864.