Versos Portuguese Bernardo Guimarães Prelúdio

Portuguese poem

Prelúdio

by (1825–1884)

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Vinde, vós todas, que nos meus caminhos Derramastes outr’ora algumas flôres, E déstes-me a colher por entre espinhos A rosa dos amores.

Surgí do limbo escuro, em que escondeis-vos Do passado na bruma adormecidas, Onde minha alma ingrata ha tanto tempo Deixou-vos esquecidas.

Eia! — ao chamado meu acudí promptas, E do olvido por entre a nevoa espessa, Bellas, donosas, quaes vos vi outr’ora, Erguei vossa cabeça.

Contão vates que Orphêo, cantor divino, A morta esposa á luz restituíra, As infernaes potencias encantando Aos sons de eburnea lyra.

Tambem da lyra aos sons quero evocar-vos Sombras queridas, pallidas imagens; Do esquecimento quero hoje arrancar-vos A’s lugubres voragens.

E quem me impedirá? — da fantasia Tenho n’alma o condão omnipotente, Que o passado nos tumulos acorda, E o faz surgir nos campos do presente.

Das musas o poder não tem limites, Do sepulcro as barreiras ultrapassa, Destróe a ausencia, as trevas alumia, E do porvir os adytos devassa.

·

Dizem que a vida é breve; — euvejo longos Por trás de mim os annos já volvidos Estereis e tristonhos se estenderem Em nevoentos longes escondidos.

Entretanto nas sendas da existencia Apenas sete lustros hei transposto, Nem da velhice ainda a mão pesada Curvou-me a fronte, nem sulcou-me o rosto.

E n’esses annos, que lá vão saudosos, Quantas vidas de amor tenho vivido; Que varios fados me hão enchido o tempo, Quanto hei gozado, e quanto mais soffrido?!..

Pelas devezas tristes do passado Como vão meus caminhos alastrados Dos destroços de minhas esperanças, De mil laços de amor despedaçados.

Dizem que a vida é breve! — é para aquelles Que vão singrando em mares de bonança, Ou resvalando em floridas veredas Embalados nos braços da esperança.

Não para quem por sendas escabrosas Deixa em sangue o vestigio de seus passos, E aqui e além, em seus tristes errores Como que o coração larga aos pedaços.

·

Se aos braços meus a campa não roubou-vos Vejo entre nós barreira inda mais forte; O fado, a ausencia, as illusões perdidas Têm muitas vezes mais poder que a morte.

Não sois mais para mim que puros sonhos, Suaves, que inspirais amor sem zelos; Como o porvir, nosso passado é sonho, Porém sem pesadelos.

Aos sons da lyra agora vos conjuro, Vinde um momento conversar comigo; Vinde n’um beijo as mal extinctas chammas Reavivar de nosso amor antigo.

Meu coração viuvo e solitario Já tendo dito adeos ás esperanças, Evocando as imagens do passado Só vive de lembranças,

Qual em deserto valle albergue em minas, Onde nos rotos tectos adejando Da noite as auras ululando vagão Saudades acordando.