Versos Portuguese Bernardo Guimarães O devanear do cético

Portuguese poem

O devanear do cético

by (1825–1884)

Listen in the reader

Tout corps traîne son ombre et tout esprit son doute.

(V. Hugo.)

Ai da avezinha, que a tormenta um dia Desgarrára da sombra de seus bosques, Arrojando-a em desertos desabridos De bronzeo céo, de fervidas arêas; Adeja, vôa, paira.... nem um ramo, Nem uma sombra encontra onde repouse, E vôa, e vôa ainda, até que o alento De todo lhe fallece; — colhe as azas, Cahe na arêa de fogo, arqueja, e morre.... Tal é, minh’alma, o fado teu na terra; O tufão da descrença desvairou-te

Por desertos sem fim, onde em vão buscas Um abrigo onde pouses, uma fonte Onde apagues a sêde que te abrasa!

·

Entre o tumulo e o berço estão prescriptos: Além, que enxergas tu? — o vacuo e o nada!...

Oh! feliz quadra aquella, em que eu dormia Embalado em meu somno descuidoso No tranquillo regaço da ignorancia; Em que minh’alma, como fonte limpida Dos ventos resguardada em quieto abrigo, Da fé os raios puros reflectia! Mas n’um dia fatal encosto á boca A taça da sciencia; — senti sêde Inextinguivel a crestar-me os labios; Traguei-a toda inteira, — mas encontro Por fim travor de fel; — era veneno, Que no fundo continha, — era a incerteza! Oh! desde então o espirito da duvida, Como abutre sinistro, de continuo Me paira sobre o espirito, e lhe entorna Das turvas azas a funerea sombra! De eterna maldição era bem digno Quem primeiro tocou com mão sacrilega Da sciencia na arvore vedada, E nos legou seus venenosos fructos...

Se o verbo creador pairando um dia Sobre a face do abysmo, a um só aceno Evocava do nada a natureza, E do seio do cháos surgir fazia A harmonia, a belleza, a luz, a ordem, Porque deixou o espirito do homem Sepulto ainda em tão profundas trevas, A debater-se n’este cháos sombrio, Onde embryões informes tumultuão, Inda aguardando a voz que á luz os chame?

Quando, espancando as sombras somnolentas, Surge a aurora no coche radiante, Inundando de luz o firmamento, Entre o rumor dos vivos que despertão, Levanto a minha voz, e ao sol, que surge, Pergunto: — Onde está Deos? — ante meus olhos A noite os véos diaphanos desdobra, Vertendo sobre a terra almo silencio, Propicio ao scismador; — então minha alma Desprende o vôo nos ethereos paramos, Além dos sóes, dos mundos, dos cometas,

Varando afouta a profundez do espaço, Anhelando entrever na immensidade A eterna fonte, d’onde a luz emana.... O’ pallidos fanaes , tremulos cirios, Que na esphera guiais da noite o carro, Planetas, que em cadencia harmoniosa No ether crystallino ides boiando, Dizei-me — onde está Deos? — sabeis se existe Um ente, cuja mão eterna e sabia Vos esparzio pela extensão do vacuo, Ou do seio do cháos desbrochastes Por insondavel lei do cego acaso? Conheceis esse rei, que rege e guia No espaço infindo vosso errante curso? Eia, dizei-me, em que regiões ignotas Se eleva o throno seu inaccessivel? Mas em vão interrogo os céos e os astros, Em vão do espaço a immensidão percorro Do pensamento as azas fatigando! Em vão; — todo o universo immovel, mudo, Sorrir parece de meu vão desejo! Duvida — eis a palavra que eu encontro Escripta em toda a parte; — ella na terra, E no livro dos céos vejo gravada,

E’ ella que a harmonia das espheras Entôa sem cessar a meus ouvidos!

Vinde, ó sábios, alampadas brilhantes, Que ardestes sobre as aras da sciencia, Agora desdobrai ante meus olhos Essas paginas, onde meditando Em profundo scismar cahir deixastes De vosso genio as vividas centelhas: Dai-me o fio subtil, que me conduza Pelo vosso intrincado labyrintho: Rasgai-me a venda, que me enubla os olhos, Guiai meus passos, que embrenhar-me quero Do raciocinio nas regiões sombrias, E sorprehender no seio de atras nuvens O escondido segredo...

Oh! louco intento!... Em mil vigilias pallejou-me a fronte, E amorteceu-se o lume de meus olhos A sondar esse abysmo tenebroso, Vasto e profundo, em que as mil hypotheses, Os erros mil, os engenhosos sonhos, Os confusos systemas se debatem,

Se confundem, se roção, se abalroão, Em um cháos sem fim turbilhonando: Attento a lhe escrutar o seio lobrego Em vão cansei-me; n’esse afan penoso Uma negra vertigem pouco e pouco Me enubla a mente, e a deixa desvairada No escuro abysmo fluctuando incerta!

·

A, que os olhos me cerca, escura treva! O’ tu, que és pai de amor e de piedade, Que não negas o orvalho á flôr do campo, Nem o tenue sustento ao vil insecto, Que de infinda bondade almos thesouros Com profusão derramas pela terra, O’ meu Deos, porque negas á minha alma A luz que é seu alento, e seu conforto? Porque exilaste a tua creatura Longe do solio teu, cá n’este valle De eterna escuridão? — Acaso o homem, Que é pura emanação da essencia tua, E que se diz creado á tua imagem, De adorar-te em ti mesmo não é digno, De contemplar, gozar tua presença, De tua gloria no esplendor perenne? Oh! meu Deos, porque cinges o teu throno Da impenetravel sombra do mysterio? Quando da esphera os eixos abalando Passa no céo entre abrasadas nuvens Da tempestade o carro fragoroso, Senhor, é tua colera tremenda Que brada no trovão, e chove em raios? E o iris, essa faixa cambiante,

Que cinge o manto azul do firmamento, Como um laço que prende aos céos a terra, E’ de tua clemencia annuncio meigo? E’ tua immensa gloria que resplende No disco flammejante, que derrama Luz e calor por toda a natureza? Dize, ó Senhor, porque a mão occultas, Que a flux esparge tantas maravilhas? Dize, ó Senhor, que para mim são mudas As paginas do livro do universo!.... Mas, ai! que o invoco em vão! elle se esconde Nos abysmos de sua eternidade.

·

Em teu escuro seio muda encerras? És tu acaso o portico do Elysio, Que nos franqueias as regiões sublimes Onde a luz da verdade eterna brilha? Ou és do nada a fauce tenebrosa, Onde a morte p’ra sempre nos arroja Em um somno sem fim adormecidos! Oh! quem pudera levantar afouto Um canto ao menos d’esse véo tremendo Que encobre a eternidade......

Mas debalde Interrogo o sepulcro, — e debruçado Sobre a voragem tetrica e profunda, Onde as extinctas gerações baquêão, Inclino o ouvido, a ver se um écho ao menos Das margens do infinito me responde! Mas o silencio que nas campas reina, E’ como o nada, — funebre e profundo......

·

Em vez de abrir-se para a luz perenne, Fossem na eterna escuridão do nada Para sempre apagar-se... — mas quem sabe? Quem sabe se depois d’esta existencia Ranascerei — p’ra duvidar ainda?!...