Portuguese poem
Lembrar-me-hei de ti
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
Lembrar-me-hei de ti, e eternamente Hei de chorar tua fatal ausencia, Emquanto atroz saudade Não extinguir-me a seiva da existencia; E recordando amores que frui, Por estes sitios sempre entre suspiros Lembrar-me-hei de ti.
De noite no aposento solitario Scismando a sós, verei a tua imagem
Apparecer-me pallida e saudosa Dos sonhos na miragem; E então chorando o anjo que perdi, Meu leito banharei de ardente pranto Chamando em vão por ti.
Quando a manhã formosa alvorecendo De seus fulgores inundar o espaço, Demandarei saudoso Esse lugar em que no extremo abraço Teu lindo corpo ao peito meu cingi; E d’este valle os échos acordando Perguntarei por ti.
Quando por trás d’aquelles arvoredos O sol sumir-se, vagarei sozinho Por essas sombras, onde outr’ora juntos Nos sentámos á borda do caminho; E ás auras que suspirão por alli, Inda teu doce nome murmurando, Hei de fallar de ti.
Além, onde sonora a fonte golpha A’ sombra de um vergel sempre viçoso,
Que sobre nós mil flôres entornava, Irei beijar a relva em que ditoso Sobre teu seio a fronte adormeci, E com a clara lympha que murmura, Suspirarei por ti.
E quando emfim seccar-se a ultima lagrima Nos olhos meus em triste desalento, Bem como a lyra, em que gemendo estala A extrema corda com dorido accento, No sitio em que a primeira vez te vi, Exhalando um suspiro, de saudades Hei de morrer por ti.