Versos Portuguese Bernardo Guimarães Invocação

Portuguese poem

Invocação

by (1825–1884)

Listen in the reader

O’ tu, que ora nos tergos da montanha Nas azas do Aquilão passas rugindo, E pelos céos entre bulcões sombrios Da tempestade o plúmbeo carro guias, Ora suspiras na mudez das sombras Manso agitando as invisiveis plumas, E ora reclinado em nuvem rosea, Que a briza embala no ouro do horizonte, Expandes no ether vagas harmonias, Voz do deserto, espirito melodico Que as cordas vibras d’essa lyra immensa, Onde resoão mysticos hosannas, Que inteira a creação a Deos exalça;

Salve, ó anjo ! — minha alma te sauda, Minha alma que, a teu sopro despertada, Murmura, qual vergel harmonioso Pelas brizas celestes embalado......

Salve, ó genio dos desertos, Grande voz da solidão, Salve, ó tu, que aos céos exalças O hymno da creação!

Sobre nuvem de perfumes Te deslisas sonoroso, E o rumor de tuas azas E’ hymno melodioso.

Que celeste cherubim Te deu essa harpa sublime, Que em variados accentos As dulias dos céos exprime?

Harpa immensa de mil cordas D’onde em caudal, pura enchente, Estão suaves harmonias Transbordando eternamente?!

De uma corda a prece humilde Como um perfume se exhala Entoando o sacro hosanna, Que do Eterno ao throno se ala;

Outra como que prantêa Com voz funebre e dorida O fatal poder da morte E as amarguras da vida;

N’esta brando amor suspira, E lamenta-se a saudade; Nest’outra ruidosa e ferrea Trôa a voz da tempestade.

Carpe as mágoas do infortunio De uma a voz triste e chorosa, E só geme sob o manto Da noite silenciosa.

Outra o hymno dos prazeres Entôa lêda e sonora, E com canticos festivos Sauda nos céos a aurora.

Salve, ó genio dos desertos, Grande voz da solidão, Salve, ó tu, que aos céos exalças O hymno da creação!

Sem ti o mundo jazêra Inda em lugubre tristeza, E o horror do cháos reinára Sobre toda a natureza;

Pela face do universo Funerea paz se estendêra, E o mundo em mudez perenne Como um tumulo jazêra

Sobre elle então pousaria Silencio torvo e sombrio, Como um sudario cobrindo Um cadaver quedo e frio.

De que servíra essa luz Que abrilhanta o azul dos céos, E essas côres tão mimosas Que tingem da aurora os véos?

Essa risonha verdura, Esses bosques, rios, montes, Campinas, flôres, perfumes, Sombrias grutas e fontes?

De que servíra essa gala, Que te enfeita, ó natureza, Se adormecida jazêras Em estupida tristeza?

Se não houvesse uma voz, Que erguesse um hymno de amor, Uma voz que a Deos dissesse — Eu vos bemdigo, ó senhor!

Do firmamento nos ceruleos paramos Sobre o dorso das nuvens balouçado, Os olhos arroubados espraiando Nos longes vaporosos Dos bosques, das remotas serranias, E dos mares na turbida planicie, Cheio de amor contemplas De Deos a obra tão formosa e grande, E em melodico adejo então pairando

A’ face dos desertos, De caudal harmonia as fontes abres; Como na lyra que pendente oscilla No ramo do arvoredo, Roçadas pelas auras do deserto, As cordas todas susurrando echôão, Assim ao sopro teu, genio canoro, De jubilo palpita a natureza, E as vozes mil desprende De seus eternos, mysticos cantares: E dos horrendos brados do oceano, Do rouco ribombar das cachoeiras, Do rugir das florestas seculares, Do querulo murmurio dos ribeiros, Do fremito amoroso da folhagem, Do canto da ave, do gemer da fonte, Dos sons, rumores, maviosas queixas, Que povoão as sombras namoradas, Um hymno teces magestoso, immenso, Que na amplidão do espaço murmurando Vai unir-se aos concertos ineffaveis Que na limpida esphera vão guiando O gyro infindo, e mysticas choréas Dos rutilantes orbes;

Flôr, que se enlaça na eternal grinalda De celeste harmonia, que incessante Se expande aos pés do Eterno!...

Tu és do mundo Alma canora, E a voz sonora Da solidão;

Tu harmonisas O vasto hymno, Almo e divino Da creação;

És o rugido D’alva cascata Que se desata Da serrania;

Que nas quebradas Espuma e tomba, E alto ribomba Na penedia;

És dos tufões Rouco zunido, E o bramido Da tempestade;

Voz da torrente Que o monte atrôa; Trovão, que echôa Na immensidade.

Suspira a noite Com teus accentos, Na voz dos ventos És tu quem gemes;

A’ luz da lua Silenciosa, Na selva umbrosa Co’a briza fremes;

E no oriente Tua voz sonora Desperta a aurora No roseo leito;

E toda a terra Amor respira.: — De tua lyra Magico effeito!

E quando a tarde Meiga e amorosa Com mão saudosa Desdobra os véos,

Tua harpa aerea Doce gemendo Lhe vai dizendo Um terno adeos!

Sentado ás vezes no alcantil dos montes Masculos sons das cordas arrancando A tempestade invocas, E á tua voz os aquilões revoltos A desfilada ruem, E em seu furor uivando encarniçados Lutão, forcejão, como se tentassem Arrancar pelas bases a montanha! Alarido infernal atrôa as selvas,

No monte ronca a turva catadupa, Que por sombrios antros despenhada Ruge tremendo no profundo abysmo; Igneo surco em súbitos lampejos Fende a lugubre sombra, — estala o raio, E os échos pavorosos ribombando As celestes abobadas atroão; E a tempestade as azas rugidoras De monte a monte estende,

E do trovão, do raio A voz ameaçadora, A furia atroadora Dos euros turbulentos,

Das selvas o rugido, Da catarata o ronco, O baque de alto tronco, A luta de mil ventos,

Dos vendavaes revoltos Os pavidos bramidos, Dos combros alluidos O horrido fracasso,

E do bulcão, que abre A rubida cratera, A voz, que estruge féra Nas solidões do espaço,

Do rabido granizo O estrondo, que susurra Nas broncas serranias, E o ribombar das vagas Nas oucas penedias, E todo esse tumulto, Que em musica horrorosa Trôa, abalando os eixos do universo, São échos de tua harpa magestosa!!

Porém silencio, ó genio, — não mais vibres As bronzeas cordas, em que bramão raios, Pregoeiros da cólera celeste: Mostra-me o céo brilhando azul e calmo Como a alma do justo, e sobre a terra Estende o manto amigo do socego. Deixa errar tua mão nos aureos fios, Onde sôes desferir molles cantigas A cujos sons se embala a natureza

Em extase suave adormecida. E solta a susurrar por entre as flôres Inquieto bando de lascivos zephyros: Que por seu meigo halito afagada A selva balancêe harmoniosa Sua virente cupola, exhalando Entre perfumes namorados quebros, E de sinistras nevoas destoucando-se No diafano azul dos horizontes Banhados de luz meiga, os montes surdão. Quando sem nuvens, placida, festiva, Tão bella assim, resplende a natureza, Me parece que Deos do excelso throno Um sorriso de amor á terra envia, E como n’esses dias primitivos, Lá quando ao sopro seu omnipotente Formosa a creação do cháos surgia, Nas obras suas se compraz ainda.

Vem pois, Anjo canoro do deserto, D’esta harpa a Deos fiel roça em teu vôo As fibras sonorosas,

E d’ellas fuja um hymno harmonioso

Digno de unir-se aos mysticos concertos, Que echôão nas espheras,

Hymno banhado nas ardentes ondas De santo amor, — que com sonoras azas Em torno a Deos susurre.

Erga-se a minha voz, inda que debil, Qual ciciar da canna, que palpita Ao sopro de uma aragem!...

Queime-se todo o incenso de minh’alma, E em ondas aromaticas se expanda Aos pés do Omnipotente!...