Portuguese poem
Disparates Rimados
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
Quando as fadas do ostracismo, Embrulhadas num lençol, Cantavam em si bemol As trovas do paroxismo, Veio dos fundos do abismo Um fantasma de alabastro E arvorou no grande mastro Quatro panos de toicinho, Que encontrara no caminho Da casa do João de Castro.
Nas janelas do destino, Quatro meninos de rabo Num só dia deram cabo Das costelas de um supino. Por tamanho desatino, Mandou o Rei dos Amores Que se tocassem tambores No alto das chaminés E ninguém pusesse os pés Lá dentro dos bastidores.
Mas este caso nefando Teve sua nobre origem Em uma fatal vertigem Do famoso conde Orlando. Por isso, de vez em quando, Ao sopro do vento sul, Vem surgindo de um paul O gentil Dalai-lama, Atraído pela fama De uma filha de Irmensul.
Corre também a notícia Que o Rei Mouro, desta feita, Vai fazer grande colheita De matéria vitalícia. Seja-lhe a sorte propícia, É o que mais lhe desejo. Portanto, sem grande pejo, Pelo tope das montanhas, Andam de noite as aranhas Comendo cascas de queijo.
O queijo — dizem os sábios — É um grande epifonema, Que veio servir de tema De famosos alfarrábios. Dá três pontos nos teus lábios, Se vires, lá no horizonte, Carrancudo mastodonte, Na ponta de uma navalha, Vender cigarros de palha, Molhados na água da fonte!...
Há opiniões diversas Sobre dores de barriga: Dizem uns que são lombrigas; Outros, que vêm de conversas. Porém as línguas perversas Nelas vêem grande sintoma De um bisneto de Mafoma, Que, sem meias, nem chinelas, Sem saltar pelas janelas, Num só dia foi a Roma.