Versos Portuguese Bernardo Guimarães Amor ideal

Portuguese poem

Amor ideal

by (1825–1884)

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Ha uma estrella no céo Que ninguém vê, sento eu. (Garrett.)

Quem és? — d’onde vens tu? Sonho do céo, visão mysteriosa, Tu, que assim me rodêas de perfumes De amor e d’harmonia?

Não és raio d’esp’rança Enviado por Deos, dictamo puro Por mãos occultas de benigno genio No peito meu vertido?

Não és anjo celeste, Que junto a mim, no adejo harmonioso

Passa, deixando-me a alma adormecida N’um extase de amor?

O’ tu, quem quer que sejas, anjo ou fada, Mulher, sonho ou visão, Ineffavel belleza, sê bem vinda Em minha solidão!

Vem, qual raio de luz dourando as trevas De um carcere sombrio, Verter doce esperança n’este peito Já de illusões vazio.

Nosso amor é tão puro! — antes parece A nota aerea e vaga De ignota melodia, extase doce, Perfume que embriaga!...

Amo-te como se ama o albor da aurora, O claro azul do céo, O perfume da flôr, a luz da estrella, Da noite o escuro véo.

Com desvelo alimento a minha chamma Do peito no sacrario, Como sagrada lampada, que brilha Dentro de um sanctuario.

Sim; a tua existencia é um mysterio A mim só revelado; Um segredo de amor, que trarei sempre Em meu seio guardado!

Ninguem te vê; — dos homens te separa Um véo mysterioso, Em que modesta e timida te escondes Do mundo curioso.

Mas eu, no meu scismar, eu vejo sempre A tua bella imagem; Ouço-te a voz trazida entre perfumes Por suspirosa aragem.

Sinto a fronte incendida bafejar-me Teu halito amoroso, E do candido seio que me abrasa O arfar voluptuoso.

Vejo-te as fôrmas do donoso corpo Em vestes vaporosas, E o bello riso, e a luz languida e meiga Das palpebras formosas!

Vejo-te sempre, mas ante mim passas Qual sombra fugitiva, Que me sorrio n’um sonho, e ante meus olhos Deslisa sempre esquiva!

Vejo-te sempre, ó tu, por quem minh’alma De amores se consome; Mas quem tu sejas, qual a patria tua, Não sei, não sei teu nome!

Ninguem te vio sobre a terra, És filha dos sonhos meus: Mas talvez, talvez que um dia Te eu vá encontrar nos céos.

Tu não és filha dos homens, O’ minha celeste fada,

D’argila, d’onde nascemos, Não és de certo gerada.

Tu és da divina essencia Uma pura emanação, Ou um effluvio do elysio Vertido em meu coração.

Tu és dos cantos do empiro Uma nota sonorosa, Que nas fibras de minh’alma Echôa melodiosa;

Ou luz de benigna estrella Que doura-me a triste vida, Ou sombra de anjo celeste Em minha alma reflectida.

Emquanto vago na terra Como misero proscripto, E o espirito não vôa Para as margens do infinito,

Tu apenas me appareces Como um sonho vaporoso,

Ou qual perfume que inspira Um scismar vago e saudoso;

Mas quando minh’alma solta D’esta prisão odiosa Vaguear isenta e livre Pela esphera luminosa,

Irei voando ancioso Por esse espaço sem fim, Até pousar em teus braços, Meu formoso Cherubim.