Portuguese poem
À sepultura de um escravo
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
Tambem do escravo a humilde sepultura Um gemido merece de saudade: Uma lagrima só corra sobre ella De compaixão ao menos.... Filho da Africa, emfim livre dos ferros Tu dormes socegado o eterno somno Debaixo d’essa terra que regaste De prantos e suores.
Certo, mais doce te seria agora Jazer no meio lá dos teus desertos
A’ sombra da palmeira, — não faltára Piedoso orvalho de saudosos olhos Que te regasse a campa; Lá muita vez, em noites d’alva lua, Canção chorosa, que ao tanger monotono De rude lyra teus irmãos entoão, Teus manes acordara: Mas aqui — tu ahi jazes como a folha Que cahio na poeira do caminho, Calcada sob os pés indifferentes Do viajor que passa.
Porém que importa — se repouso achaste, Que em vão buscavas n’este valle escuro, Fertil de pranto e dôres; Que importa — se não ha sobre esta terra Para o infeliz asylo socegado? A terra é só do rico e poderoso, E d’esses idolos que a fortuna incensa, E que, ebrios de orgulho, Passão, sem ver que co’as velozes rodas Seu carro d’ouro esmaga um mendigante No lodo do caminho!.... Mas o céo é d’aquelle que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo; É de quem sobre as chagas do inditoso Derrama o doce balsamo das lagrimas; É do orphão infeliz, do ancião pesado, Que da indigencia no bordão se arrima; É do pobre captivo, que em trabalhos No rude afan exhala o alento extremo; — O céo é da innocencia e da virtude, O céo é do infortunio.
Repousa agora em paz, fiel escravo, Que na campa quebraste os ferros teus, No seio d’essa terra que regaste De prantos e suores. E vós, que vindes visitar da morte O lugubre aposento, Deixai cahir ao menos uma lagrima De compaixão sobre essa humilde cova; Ahi repousa a cinza do Africano, — O symbolo do infortunio.