Versos Portuguese Bernardo Guimarães A uma Estrela

Portuguese poem

A uma Estrela

by (1825–1884)

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A UMA ESTRELLA

POESIA OFFERECIDA A MEU AMIGO O SR. A. C. C. V. C.

Quando infiltras meigos raios Pelas ramas do arvoredo.

Pallida filha da noite, Sempre és pura e maviosa; Fulge-te o rosto formoso Qual branca orvalhada rosa.

Eu amo teu manso brilho, Que como olhar amoroso, Vigilante á noite se abre Sobre o mundo silencioso,

Ou como em beijo de paz, Que o céo sobre a terra envia, Na face d’ella espargindo Silencio e melancolia.

Salve, ó flôr do ethereo campo, Astro de meigo palor! Tu serás, formosa estrella, O fanal do meu amor.

N’este mundo, que allumias Com teu pallido clarão, Existe um anjo adoravel Digno de melhor mansão.

Muitas vezes a verás Sozinha e triste a pensar, E seus languidos olhares Com teus raios se cruzar.

Nas faces a natureza Lhe esparzio leve rubor, Mas a fronte lisa e calma Tem dos lirios o palor.

Mais que o ebano brunido Lhe fulge a madeixa esparsa, E co’os anneis lhe sombrêa O niveo collo de garça.

Nos labios de carmim vivo, Rara vez paira um sorriso; Não póde sorrir na terra, Quem pertence ao paraiso.

Seus olhos negros, tão puros Como o teu puro fulgor, São fontes, onde minh’alma Vai abrevar-se de amor.

Se a este mundo odioso, Onde me langue a existencia, Me fosse dado roubar Aquelle anjo de innocencia;

E n’esses orbes que gyrão Pelo espaço luminoso, P’ra nosso amor escolher Um asylo mais ditoso...

Se eu pudesse a ti voar, Astro de meigo palor, E com ella em ti viver Eterna vida de amor...

Se eu pudesse... Oh! vão desejo, Que me embebe em mil delirios, Quando assim de noite scismo Á luz dos celestes cirios!

Porém ao menos um voto Vou fazer-te, ó bella estrella, A’ minha supplica attende, Não é por mim, é por ella;

Tu, que és o astro mais bello Que gyra no azul do céo, Sê seu horoscopo amigo, Preside ao destino seu.

Leva-a sobre o mar da vida Embalada em sonho ameno, Como um cysne, que deslisa A’ flôr de um lago sereno.

Se diante dos altares Curvar os joelhos seus, Dirige-lhe a prece ardente Direito ao throno de Deos.

Se solitaria scismar, No mais brando raio teu Manda-lhe um beijo de amor, E puros sonhos do céo.

Veja sempre no horizonte Tua luz serena e mansa, Como um sorriso do céo, Como um fanal de esperança.

Porém se o anjo celeste Sua origem deslembrar, E no lodo vil do mundo As niveas azas manchar;

Ai! se louca profanando De um puro amor a lembrança, Em suas mãos sem piedade Esmagar minha esperança,

Então, estrella formosa, Cubra-te o rosto um bulcão, E sepulta-te para sempre Em perpetua escuridão!