Portuguese poem
Ao ilm. sr. coronel Antonio Felisberto Nogueira
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
AO ILLM. SR. CORONEL
ANTONIO FELISBERTO NOGUEIRA ENDEREÇANDO-LHE ESTES CANTOS DA SOLIDÃO
O meu pobre alaúde affeito ao pranto; Oh! não...porque no vaso de meu peito Sem seiva, a flôr suave dos amores Inclinou murcha o mavioso calix.
E nem vão elles nos jardins da gloria Colher-me o sacro louro do poeta, Aureola fatal, que tantas vezes Sobre a fronte que a cinge o raio chama.
Qual leve aroma que da flôr se exhala, E por momentos embalsama os ares, Depois se esvae, se perde, — assim meus cantos Talvez acabaráõ; — e a lyra ingloria Se quebrará na pedra do meu tumulo Sem mandar ao porvir um écho ao menos.
Ide pois, cantos meus, voai azinha; Ide; vossa missão é pura e santa; Desdobrai sem receio as azas candidas Na esphera azul; — transponde rios, serras, Profundos valles, plainos e florestas, E onde virdes retiro ameno e lédo, Como que d’este mundo separado Por altos serros, que alcantis corôão,
Casto asylo soidoso, onde não chegão O importuno alvoroço, os vãos rumores Das procéllas do mundo; — aonde virdes De hirsuto monte nas virentes faldas, Formoso alvergue branquejar risonho Por entre a escura rama dos pinheiros, Como um floco de neve, que dos montes Rodou sobre o verdor do valle ameno, Ahi pousai; — n’esse escondido asylo, Caro a meu coração, vive um amigo No remanso dos ermos procurando Sereno curso p’ra seus velhos dias, E olvido para as mágoas do passado. Na vasta sombra d’esse tronco annoso Provado já em tormentosas lutas, Um dia minha fragil juventude Foi abrigar-se; — e placida guarida Meus dias foragidos encontrárão. Sorrindo da tormenta, eu contemplava Em luta com os tufões ranger-lhe o tronco, E no tope sublime a tempestade Passar rugindo sem vergar-lhe o collo; E abençoava o céo, que em meu deserto Me mostrou sua sombra hospitaleira.
Mas — lá mesmo, na paz do seu retiro Soffre talvez: — em sua nobre fronte Os dias têm passado tormentosos, Deixando n’ella em veneraveis surcos Impresso o sello austero do infortunio; E em seu peito talvez fermenta ainda O fel de mil lembranças dolorosas! Elle soffre, que é essa a sina eterna De uma alma pura e grande: é assim que as nuvens Procurão sempre o pincaro mais alto E em torno conglobadas o corôão De sinistro bulcão, prenhe de raios. Ide, minhas canções, voai aos ermos, Filhas da solidão, voltai a ella! Bafejai do deserto o altivo tronco, E como um bando de fagueiras brizas, Em torno lhe agitai as leves azas, Perfumadas de amor e de harmonia; Ouça-vos elle nas serenas sombras A soluçar com a fonte gemedora, Que desfia entre o musgo dos penedos, Brincar nas folhas c’os travessos zephyros, E nas humidas lapas suspirando; Ouça-vos a rugir com a tempestade
E reboar nas broncas serranias, Gemer no pinheiral, roncar no abysmo Co’as despenhadas aguas ribombando; Sobre seus lares adejai cantando, Alegres como o trino da andorinha; E do repouso nas caladas horas, Do leito seu afugentai cuidados, Negras visões, anciados pesadêlos; O somno lhe embalai, e sobre a fronte Fazei pousar-lhe um sonho de esperança, Qual flôr mimosa a vicejar no pino De erma rocha, surcada pelos raios.