Portuguese poem
A orgia dos duendes
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
I.
Taturana, uma brucha amarella, Resmungando com ar carrancudo, Se occupava em frigir na panella Um menino com tripas e tudo.
Getirana com todo o socego A caldeira da sôpa adubava Com o sangue de um velho morcego, Que alli mesmo co’as unhas sangrava.
Mamangava frigia nas banhas Que tirou do cachaço de um frade, Adubado com pernas de aranhas, Fresco lombo de um frei dom abbade.
Vento sul sobiou na combuca, Gallo-preto na cinza espojou; Por tres vezes zumbio a matruca, No cupim o macuco piou.
E a rainha co’as mãos resequidas O signal por tres vezes foi dando, A cohorte das almas perdidas D’esta sorte ao batuque chamando:
«Vinde, ó filhas do ouco do páo, Lagartixas do rabo vermelho, Vinde, vinde tocar merimbáo, Que hoje é festa de grande apparelho.
Raparigas do monte das cobras, Que fazeis lá no fundo da brenha? Do sepulcro trazei-me as abobras, E do inferno os meus feixes de lenha.
Ide já procurar-me a bandurra, Que me deu minha tia Marselha, E que aos ventos da noite susurra, Pendurada no arco da velha.
Onde estás, que inda aqui não te vejo, Esqueleto gamenho e gentil? Eu quizera acordar-te c’um beijo Lá no teu tenebroso covil.
Gallo-prelo da torre da morte, Que te aninhas em leito de brasas, Vem agora esquecer tua sorte, Vem-me em torno arrastar tuas azas.
Sapo-inchado, que moras na cova Onde a mão do defunto enterrei, Tu não sabes que hoje é lua nova, Que é o dia das dansas da lei?
Tu também, ó gentil Crocodilo, Não deplores o succo das uvas; Vem beber excellente restilo Que eu do pranto extrahi das viuvas.
Lobishome, que fazes, meu bem, Que não vens ao sagrado batuque? Como tratas com tanto desdem, Quem a c’rôa te deu de grão duque?»
II.
Tres diabos vestidos da rôxo Se assentárão aos pés da rainha, E um d’elles, que tinha o pé coxo, Começou a tocar campainha.
Campainha, que toca, é caveira Com badalo de casco de burro, Que no meio da selva agoureira Vai fazendo medonho susurro.
Capétinhas trepados nos galhos Com o rabo enrolado no páo, Uns agitão sonoros chocalhos, Outros poem-se a tocar marimbáo.
Crocodilo roncava no papo Com ruido de grande fragor; E na inchada barriga de um sapo Esqueleto tocava tambor.
Da carcassa de um secco defunto E das tripas de um velho barão, De uma bruxa engenhosa o bestunto Armou logo feroz rabecão.
Assentado nos pés da rainha Lobishome batia a batuta Co’ a canella de um frade, que tinha Inda um pouco de carne corrupta.
Já resôão timbales e rufos, Ferve a dansa do cateretê; Taturana, batendo os adufos, Sapatêa cantando — o le ré!
Getirana, bruxinha tarasca, Arranhando fanhosa bandurra, Com tremenda embigada descasca A barriga do velho Caturra.
O Caturra era um sapo papudo Com dous chifres vermelhos na testa, E era elle, a despeito de tudo, O rapaz mais patusco da festa.
Já no meio da roda zurrando Apparece a mula-sem-cabeça, Bate palmas a sucia berrando — Viva, viva a Sra. condessa!...
E dansando em redor da fogueira Vão gyrando, gyrando sem fim; Cada qual uma estrophe agoureira Vão cantando alternados assim:
III. TATURANA.
E depois por amores de um frade Ao supplicio o abbade arrastei.
Os amantes, a quem despojei, Conduzi das desgraças ao cumulo, E alguns filhos, por artes que sei, Me cahírão do ventre no tumulo.
GALLO PRETO.
Quantos vivos queimei sobre a terra, Já eu mesmo contal-os não sei.
Das severas virtudes monasticas Dei no emtanto piedosos exemplos; E por isso cabeças fantasticas Inda me erguem altares e templos.
MULA-SEM-CABEÇA .
CROCODILO.
Do meu reino e de minhas cidades O talento e a virtude enxotei; De michélas, carrascos e frades, De meu throno os degráos rodeei.
Com o sangue e suor de meus povos Diverti-me e criei esta pança, Para emfim, urros dando e corcovos, Vir ao demo servir de pitança.
RAINHA.
Uma noite co’as colchas do leito Abafei para sempre os queixumes.
Ao segundo, da torre do paço Despenhei por me ser desleal; Ao terceiro por fim n’um abraço Pelas costas cravei-lhe um punhal.
Entre a turba de meus servidores Recrutei meus amantes de um dia; Quem gozava meus regios favores Nos abysmos do mar se sumia.
No banquete infernal da luxuria Quantos vasos aos labios chegava, Satisfeita aos desejos a furia, Sem piedade depois os quebrava.
Quem pratica proesas tamanhas Cá não veio por fraca e mesquinha, E merece por suas façanhas Inda mesmo entre vós ser rainha.
IV.
«Fóra, fóra! esqueletos poentos, Lobishomes, e bruxas mirradas! Para a cova esses ossos nojentos! Para o inferno essas almas damnadas!»
Um estouro rebenta nas selvas, Que recendem com cheiro de enchofre; E na terra por baixo das relvas Toda a sucia sumio-se de chofre.
V.
E na sombra d’aquelle arvoredo, Que inda ha pouco vio tantos horrores, Passeando sózinha e sem medo Linda virgem scismava de amores.