Versos Portuguese Bernardo Guimarães Esperança

Portuguese poem

Esperança

by (1825–1884)

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Espère, enfant! — demain! — et puis demain encore; Et puis, toujours demain!

(V. Hugo.)

Singrando vai por mares não sulcados Aventureiro nauta, que demanda Ignotas regiões, sonhados mundos; Eil-o que audaz se entranha Na solidão dos mares — a esperança Em lisongeiros sonhos já lhe pinta Rica e formosa a terra suspirada, E corre, corre o nauta Avante pelo paramo das ondas; Além um ponto surde no horizonte Confuso — é terra! — e o coração lhe pula De insolito prazer.

Terra! — terra! — bradou—e era uma nuvem! E corre, corre o nauta Avante pelo paramo das ondas; No profundo horizonte os olhos avidos Ancioso embebe; — ai! que só divisa Ermos céos, ermas ondas.... O desalento já lhe côa n’alma; Oh! não; eis nos contins lá do oceano Um monte se desenha; Não é mais illusão — já mais distincto Surge acima das ondas — oh! é terra! Terra! — terra! — bradou; era um rochedo, Onde as ondas batendo eternamente Rugindo se espedação.

Eis do nosso passar por sobre a terra Em breve quadro uma fiel pintura; E’ a vida oceano de desejos Intermino, sem praias, Onde a esmo e sem bussola boiamos Sempre, sempre com os olhos enlevados Na luz d’esse fanal mysterioso, Que alma esperança mostra-nos sorrindo Nas sombras do porvir.

E corre, e corre a existencia, E cada dia que cahe Nos abysmos do passado E’ um sonho que se esvai,

Um almejo de noss’alma, Anhelo de f’licidade Que em suas màos espedaça A cruel realidade;

Mais um riso que nos labios Para sempre vai murchar, Mais uma lagrima ardente Que as faces nos vem sulcar;

Um reflexo de esperança No seio d’alma apagado, Uma fibra que se rompe No coração ulcerado.

Pouco e pouco as illusões Do seio nos vão fugindo, Como folhas ressequidas, Que vão d’arvore cahindo;

E nua fica nossa alma Onde a esp’rança se extinguio, Como tronco sem folhagem Que o frio inverno despio.

Mas como o tronco remoça E torna ao que d’antes era, Vestindo folhagem nova C’o volver da primavera,

Assim na mente nos pousa Novo enxame de illusões, De novo o porvir se arreia De mil douradas visões.

A scismar com o futuro A alma de sonhar não cansa, E de sonhos se alimenta, Bafejada da esperança.

Esperança que és tu? Ah! que minha harpa Já não tem para ti sons lisongeiros; Sim — n’estas cordas já por ti malditas Acaso tu não ouves

As queixas abafadas que susurrão, E em voz funerea soluçando vibrão Um cantico de anathema? Chamem-te embora balsamo do afflicto, Anjo do céo que nos alenta os passos Nas sendas da existencia; Nunca mais poderás, fada enganosa, Com teu canto embalar-me, eu já não creio Nas tuas vãs promessas; Não creio mais n’essas visões donosas Fantasticos painéis, com que sorrindo Matizas o futuro! Estereis flôres, que um momento brilhão E cahem murchas sem deixarem fructo No tronco desornado. — Vem após mim — ao desditoso dizes; — Não esmoreças, vem; — é vasto e bello O campo do futuro; — lá florecem As mil delicias que sonhou tua alma, Lá te reserva o céo o doce asylo A cuja sombra abrigarás teus dias. Porém — é cedo — espera. E eil-o que vai com os olhos enlevados Nas cores tão formosas

Com que bordas ao longe os horizontes.... E fascinado o misero não sente Que mais e mais se embrenha Pela sombria noite do infortunio. E se dos labios seus queixas exhala, Se o fel do coração emfim transborda Em maldições, em gritos de agonia, Em teu regaço, perfida seréa, Co’a voz embaidora, inda o acalentas; — Não esmoreças, não; — é cedo; espera; — Lhe dizes tu sorrindo. E quando emfim no coração quebrado De tanta decepção, soffrer tão longo, Nos vem roçar do desalento o sopro, Quando emfim no horizonte tenebroso A estrella derradeira em sombras morre, Esperança, teu ultimo lampejo, Qual relampago em noite tormentosa, Abre clarão sinistro, e mostra a campa Nas trevas alvejando.