Portuguese poem
Hino à aurora
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
E já no campo azul do firmamento A noite extingue os cirios palejantes, E em silencio arrastando a fimbria escura Do tenebroso manto Transpõe do occaso os montes derradeiros. A terra, de entre as sombras resurgindo Do molle somno languida desperta, E qual noiva gentil, que o esposo aguarda, De galas se adereça.
Rosea filha do sol, eu te saudo! Formosa virgem de cabellos d’ouro,
Que prazenteira os passos antecedes Do rei do firmamento, Em seus caminhos flôres dispargindo! Salve, aurora! — quão donosa surges Nos azulados topes do oriente Desfraldando o teu manto auri-rosado! Qual candida princeza Que em desalinho languida se erguêra Do brando leito, em que sonhou venturas, Tu lá no ethereo throno vaporoso Entre cantos e aromas festejada, Sorrindo escutas os melifluos quebros Das mil canções com que sauda a terra O teu raiar sereno.
Tambem tu choras, pois em minha fronte Sinto teu pranto, e o vejo em gottas limpidas A scintillar na tremula folhagem: Assim no rosto da formosa virgem — Effeito ás vezes de amoroso enleio — Brilha através das lagrimas o riso.
Bemdiz o viajor extraviado Tua luz benigna que a vereda aclara,
E mostra ao longe fumegando os tectos De alvergue hospitaleiro. Pobre colono alegre te sauda, Por ver em torno do singelo colmo Sorrir-se vicejante a natureza, Manso rebanho retouçar contente, Crescer a messe, as flores desbrocharem; E unindo a voz aos canticos da terra, Aos céos envia sua humilde prece. E o desditoso, que entre angustias vela No inquieto leito soffrego volvendo-se, Espia ancioso o teu fulgor primeiro, Que lhe derrama nas feridas d’alma Celeste refrigerio.
A ave canora para ti reserva De seu cantar as mais suaves notas; E a flôr, que expande o calix orvalhado As extremes primicias te consagra De seu brando perfume...... Vem, casta virgem, vem com teu sorriso, Teus perfumes, teu halito amoroso, Esta cuidosa fronte bafejar me; Orvalho e fresquidão piedosa verte
Nos ardentes delirios de minh’alma, E desvanece estas visões sombrias, Funestos sonhos da penada noite! Vem, ó formosa...... Mas que é feito d’ella?.. O sol já mostra na brilhante esphera O disco ardente — e a linda moça etherea Que inda ha pouco entre flôres reclinada Sorria-se amorosa no horizonte, Emquanto a saudava com meus hymnos, — Imagem do prazer, que breve dura, — Se esvaeceu nos ares...... Adeos, esquiva nympha, Fugitiva illusão, aerea fada! Adeos tambem, canções enamoradas, Adeos, rosas de amor, adeos, sorrisos.....