Portuguese poem
Desalento
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
N’estes mares sem bonança, Boiando sem esperança, Meu baixel em vão se cansa Por ganhar o amigo porto; Em sinistro negro véo Minha estrella se escondeu; Não vejo luzir no céo Nenhum lume de conforto.
A tormenta desvairou-me, Mastro e vela escalavrou-me,
E sem alento deixou-me Sobre o elemento infiel; Ouço já o bramir tredo Das vagas contra o penedo Onde irá — talvez bem cedo — Sossobrar o meu batel.
No horizonte não lobrigo Nem praia, nem lenho amigo, Que me salve do perigo, Nem fanal que me esclareça; Só vejo as vagas rolando, Pelas rochas soluçando, E mil coriscos sulcando A medonha treva espessa.
Voga, baixel sem ventura, Pela turbida planura, Através da sombra escura, Voga sem leme e sem norte; Sem velas, fendido o mastro, Nas vagas lançado o lastro, E sem ver nos céos um astro, Ai! que só te resta a morte!
Nada mais ambiciono, Ás vagas eu te abandono, Como cavallo sem dono Pelos campos a vagar; Voga n’esse pégo insano, Que nos roncos do oceano Ouço a voz do desengano Pavorosa a ribombar!
Voga, baixel foragido, Voga sem rumo — perdido, Pelas tormentas batido, Sobre o elemento infiel; Para ti não ha bonança; A’ tôa, sem leme avança N’este mar sem esperança, Voga, voga, meu baixel!