Versos Portuguese Bernardo Guimarães Cenas do sertão

Portuguese poem

Cenas do sertão

by (1825–1884)

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SCENAS DO SERTÃO

Tantas vezes, amigo, hei percorrido, Vai hoje visitar-te a minha musa.

Vai ella só.... É pena que eu não possa No aprazivel passeio acompanhal-a; Eu de bom grado aos ermos a seguira. Mas não sei que destino aqui me prende Entre um montão de lugubres papeis, Que como enxame de importunas vespas Em torno me esvoação de continuo, Folhas chamadas, — não as verdes folhas, Que a fronte adornão das viçosas selvas, E vertendo ao cansado viandante Com brando rumorejo alma frescura Dão vida ao coração, repouso á mente. São folhas seccas, aridas, tristonhas, Que por todos os cantos me farfalhão, Como baratas chocalhando as azas Entre as fendas de velho pardieiro. Dizem no emtanto os homens entendidos Que essas tristes folhas são as azas Com que vôa o progresso pelo mundo... Vivo portanto aqui immovel, quedo, Como droga, embrulhado em papelada.

Vai pois a pobre musa, e vai sózinha Por essas feias mattas, sem ter medo De onças, sucurys ou jararácas, No teu fundo retiro procurar-te. Não vai c’roada de apollineo louro, Nem cinge aos pés o classico cothurno, E nem tão pouco empunha eburnea lyra De cordas de ouro e ornada de guirlandas. Vai, coitadinha! de chapéo de palha, De chale sobraçado; os pés lhe amparão Sandalias de romeira, — aos hombros leva Um velho violão, e nos cabellos Singelas flôres, que apanhou no campo.

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N’esses donosos paramos infindos?... Do lar paterno nos umbraes sentado Contemplas mudo os vastos horizontes, As scenas grandiosas, os prodigios, Que em torno a natureza te desdobra, As estranhas usanças, os costumes Semi-selvagens d’esse povo inculto, Que vaguêa nas ribas nemorosas Do Parnahyba undoso e turbulento, E de tua alma nem um écho escapa, Nem um só canto casas aos rumores De teus palmares, ao murmurio eterno, Com que te embalão selvas seculares?...

Eia, amigo, desprende a lyra tua Do ramo em que ociosa balancêa Das solidões ao vento reboando, E canta-nos da terra, em que nasceste, O puro céo de nuvens esmaltado, Que em graciosos flocos se ennovelão De cambiantes cores irisadas; Os çrystallinos corregos saltando Pelo vargedo entre floridas moutas, Dos campos seus o eterno e vivo esmalte,

As selvas magestosas, as torrentes, Que nas profundas furnas despenhadas O leito cavão por penedos broncos, Os ondulosos plainos de verdura, Onde dispersas vagão as manadas De truculentos bois, nedias novilhas, De variadas cores marchetando A viçosa esmeralda das campinas.

Conta-nos como o caçador valente No fragueiro exercicio endurecido Lança no matto as trelas adestradas Dos raivosos lebréos impacientes, Que de um salto se atirão pelas brenhas, Latindo, uivando, a demandar a pista Da descuidada victima innocente. Ergue as orelhas o veloz mateiro, Que na occulta guarida estremecendo Escuta ao longe o rabido alarido De seus infatigaveis inimigos. Veloz como o tufão, eil-o que aos saltos Rompe do bosque a emmaranhada grenha, Furnas transpõe, vallad os e tranqueiras De tombados madeiros; — como a péla,

Que cada vez mais alto salta e vôa, A pulos vence os alcantis agudos, Galga barrancos, sotopõe fraguedos, Até que de fadiga extenuado Pelas narinas, pela aberta boca Os ardentes arquejos exhalando Os fumegantes flancos lhe latejão... Porém julgando já longe o perigo Estafado e arquejante um pouco pára, Por um momento inquieto o ouvido applica A consultar os échos da floresta; — Mas ai! — inda não longe lhe resôão Os continuos latidos da matilha, Que encarniçada lhe não deixa a pista. Escuta ainda; — além murmura o rio, Que o largo veio manso desdobrando A salvação e a vida lhe offerecem, Que as selvas suas amparar não podem.

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O caçador o aguarda apercebido. Não trôa um tiro, que a veloz piroga Por vigorosos braços impellida Nas aguas resvalando corre ao encalce Da fatigada victima indefesa, Que pelos galhos subito agarrada Por mãos possantes, sente nas entranhas Buído ferro penetrar rangendo, E da existencia as fontes lacerar-lhe. Num extremo balido o alento exhala, E com seu quente sangue tinge as aguas, Onde imprudente a salvação buscava.

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Ao longe estende nas planicies vastas. Em mil combates já victorioso Para longe espancou rivaes temiveis, Que em campo aberto disputar-lhe ousárão De sua nedia grei a posse e o mando.

Porém um dia, como o velho chefe Os flancos mollemente reclinando Em mimoso capim junto da fonte, Tranquillamente ruminando as hervas Ao sol de manhã pura se aquecia A contemplar a numerosa tribu, Que em torno vaga, — subito uns bramidos Longinquos aos ouvidos descuidosos Vêm resoar-lhe. — Por alguns instantes Attento escuta; — após lesto se erguendo, E sacudindo os retorcidos cornos, Ergue a cabeça, e com torvados olhos Percorre ao largo os chapadões immensos.

É hora de combate. — Muito ao longe Todo envolvido em turbilhões de terra, Que com as unhas, com as rijas pontas Cava no chão, e arroja pelos ares,

Campêa o inimigo, e denodado Avançando e rugindo, pouco e pouco Do rival temeroso se avizinha. De seu acampamento o velho chefe Não se arreda; porém calado e quedo Por um momento o seu rival escuta, E quasi acreditar inda não póde, Que haja em torno atrevido aventureiro Que se abalance a disputar-lhe a posse Dos campos seus, de seu gentil rebanho.

Esse inimigo audaz, que o procurava, E a combate o chamava em campo aberto, Era um touro novel, guapo novilho, Que nascera e cresceu no mesmo campo, E inda ha pouco do chefe entre a manada Pascia os mesmos prados, e bebia Da mesma fonte. Mas sua presença Já inquietava ao carrancudo despota, Que suspeitoso espreita-lhe as passadas. Já na belleza e no vigor crescendo O galhardo novilho se arriscava, Se bem que a medo, a acompanhar nos bosques, Amorosos mugidos exhalando,

Do rebanho as novilhas mais formosas. Bem o presente o ciumento velho, Que em partilhar de modo algum consente Com mais ninguem delicias de um serralho, Que conquistou co’ a ponta de seus cornos. Ardendo em zelos, de furor raivando, Corre a punir o temerario amante, Que ousa a seus olhos requestar-lhe as vaccas. Quer este resistir; — mas inda novo, Inda não traquejado nas pelejas, Dos campos seus nataes afugentado, Espancado e ferido, foi ao longe Chorar no seio das profundas brenhas Seu infortúnio e meditar vingança. Longo tempo vagou pelas florestas Errante, sem rebanho e sem amores, Com bramidos de dôr e desespero Das solidões amedrontando os échos. Nos rijos troncos, nos cupins annosos Exerce e aguça as formidaveis pontas, E nos alheios campos penetrando Os cornos cruza em luta encarniçada Dos arredores com os mais fortes chefes; A uns soterra, e para longe exila

Dos campos seus vincidos e humilhados; A outros rasga as tepidas entranhas; Outros nos tremedaes deixa atolados, Ou precipita em boqueirões profundos, Aonde encontrão morte e sepultura. Eil-o já lidador robusto e féro, De trophéos e victorias carregado, Terror e assombro em torno derramando, Para vingar não esquecida affronta Nas campinas nataes ufano surge.

Assim Cesar, a quem de Roma arreda De ambiciosos emulos a inveja, Depois que longo tempo confinado Nas Gallias, entre asperrimos trabalhos Cem batalhas venceu, domou cem povos, Á Italia volta, o Rubicon transpõe, O orgulhoso Pompéo enxota e vence, E toma posse da cidade eterna.

O novel lidador avança intrepido, Rasgando a terra, os troncos escarchando Co’as pontas furibundas, e de estragos Ao largo alastra os sitios em que passa.

Sem do campo arredar-se o chefe o aguarda Junto a um velho cupim, que impaciente Qual se fosse o inimigo ataca e rompe, E em mil pedaços pelos ares lança, Ou com as unhas cava fundo a terra, Como quem ao rival, que dá por morto, De ante-mão vai abrindo a sepultura. A terra treme aos urros furibundos Dos ferozes, cornigeros athletas, Que com solemne lentidão sinistra Pouco a pouco bramindo se approximão. Chegados frente a frente quedos parão Quasi sem respirar, e fito a fito, Mudos, torvados, de revez se encarão. De horror transida a grei muda contempla Esse solemne e pavoroso instante, Em que os dous ferozes contendores Parece que um ao outro se devorão Com torvo olhar sanguineo. —

Mas de chofre Cruzão-se os cornos com fracasso horrendo, Que pelas brenhas muito ao longe trôa. Está travada a luta; — o chão retreme

Ao tropear das truculentas patas; — As gramas das campinas arrancadas No revolto brigar aos ares voão, E em breve o campo ao largo se converte Em terra nua e solta, qual se enxada Alli passasse revolvendo o solo. O rouco som dos cornos, que abalroâo, O estrugido dos cascos, que retumbão Do solo as profundezas abalando, E esses surdos gemidos, que se exhalão Da luta ardente no arquejar raivoso, Medonha orchestra formão, que de susto Mesmo as pantheras recuar farião. Consternado o rebanho em torno corre, Lastimosos bramidos exhalando, E como que com rogos vãos procura Dos combatentes acalmar a sanha.

O dia inteiro, com bem curtas tregoas — Só para retomar um pouco o alento — Na renhida peleja se sustentão Sem as buídas haspas descruzarem. Para esgotar de seu contrario as forças, O novel campeão manhoso e arteiro

Deixa impellir-se, e cede cauteloso De seu rival aos empurrões tremendos, Que o leva de rondâo pelas campinas, N’um brejo o atola, o esbarra pelos troncos, E da victoria já quasi seguro De um golpe extremo decidir intenta A porfiosa, tetrica peleja; Recúa um pouco destravando os cornos, E as pontas abaixando se arremessa Ao ventre do inimigo; — mas debalde No desigual terreno em que lutavão Por barranceiras ambos se despenhão, E a travar-se de novo se levantão.

Já desce a noite, e as sombras, que descahem, Estão pedindo ou tregoas ou victoria. O novel lidador reune as forças, Que até então de industria sopeára, E com vigor insolito esbarrando O estafado rival de encontro o leva A um rijo tronco, e ennovelado o tomba. O cahido porém presto levanta-se E de novo o combate recomeça. Mas ai! que já suster não póde os impetos

Com que o atropella seu rival possante. Eis que de novo aos recuões levado Se perde, se embaraça, e resupino Aos pés do vencedor de novo rola. Do irado vencedor as corneas pontas Eil-o já sente a retalhar-lhe as carnes; Então soltando um lugubre bramido A custo se ergue, e rapida carreira Fugindo estende pelos campos vastos. O vencedor porém vai-lhe no encalce, E por espaço largo o segue e punge Até transpor as ultimas collinas, E longe o exila d’esses campos, onde Inda ha pouco no meio de manadas Seu poderio alardeava ufano.

Ai do vencido ! — pelas fundas brenhas A mugir e a chorar eil-o se entranha Lascando troncos, escarvando a terra, Como se espedaçar tentasse as armas, Que não lhe podem mais dar a victoria.

O tempo emfim vem acalmar-lhe a furia, E o pobre do animal, tornado eunucho,

De combates e amores esquecido, Tranquillamente pasce entre as manadas, E do bom lavrador jungido ao carro Mais utilmente sua força emprega, Até que um dia para sempre larga Nas mãos do carniceiro o couro e a carne.

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