Versos Portuguese Bernardo Guimarães O ermo

Portuguese poem

O ermo

by (1825–1884)

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Quæ sint, quæ fuerint, quæ sunt ventura, trahentur.

(Virgilio.)

I.

Ao ermo, ó musa: — além d’aquelles montes, Que, em vaporoso manto rebuçados, Avultào lá na extrema do horizonte... Eia, vamos; — lá onde a natureza Bella e virgem se mostra aos olhos do homem, Qual moça indiana, que as ingenuas graças Em formosa nudez sem arte ostenta!... Lá onde a solidão ante nós surge, Magestosa e solemne como um templo, Em que sob as abobadas sagradas, Inundadas de luz e de harmonia,

Êxtase santo paira entre perfumes, E se ouve a voz de Deos. — O’ musa, ao ermo!..

Como é formoso o céo da patria minha! Que sol brilhante e vivido resplende Suspenso n’essa cupola serena! Terra feliz, tu és da natureza A filha mais mimosa; — ella sorrindo N’um enlevo de amor te encheu d’encantos, Das mais donosas galas enfeitou-te; Belleza e vida te espargio na face, E em teu seio entornou fecunda seiva! Oh! paire sempre sobre os teus desertos Celeste benção; bem fadada sejas Em teu destino, ó patria; — em ti recobre A prole de Eva o Eden que perdêra!

II.

Olha: — qual vasto manto que fluctua Sobre os hombros da terra, ondêa a selva, E ora surdo murmurio ao céo levanta, Qual prece humilde, que no ar se perde, Ora açoutada dos tufões revoltos,

Ruge, sibila, sacudindo a grenha Qual horrida bacchante: — alli despenha-se Pelo dorso do monte alva cascata, Que, de alcantis enormes debruçada, Em argentea espadana ao longe brilha, Qual longo véo de neve, que esvoaça, Pendente aos hombros de formosa virgem, E já, descendo a colear nos valles, As plagas fertilisa, e as sombras peja D’almo frescor, e placidos murmurios...

Alli campinas? roseos horizontes, Limpidas veias, onde o sol tremula, Como em dourada escama reflectindo Floreas balsas, collinas vicejantes, Toucadas de palmeiras graciosas, Que em céo limpido e claro balancêão A coma verde-escura. — Além montanhas, Eternos cofres d’ouro e pedraria, Coroados de píncaros rugosos, Que se embebem no azul do firmamento! Ou se te apraz, desçamos n’esse valle, Manso asylo de sombras e mysterio, Cuja mudez talvez jámais quebrára

Humano passo revolvendo as folhas, E que nunca escutou mais que os arrulhos Da casta pomba, e o soluçar da fonte... Onde se cuida ouvir, entre os suspiros Da folha que estremece, os ais carpidos Dos manes do Indiano, que inda chora O doce Eden que os brancos lhe roubárão!...

Que é feito pois d’essas guerreiras tribus, Que outr’ora estes desertos animavão? Onde foi esse povo inquieto e rude, De bronzea côr, de torva catadura, Com seus cantos selvaticos de guerra Restrugindo no fundo dos desertos, A cujos sons medonhos a panthera Em seu covil de susto estremecia? Oh! floresta — que é feito de teus filhos?

Dorme em silencio o écho das montanhas, Sem que o acorde mais o rude accento Das guerreiras inubias: — nem nas sombras Semi-núa, do bosque a ingênua filha Na preguiçosa rêde se embalança. Calárão-se para sempre, n’essas grutas

Os propheticos cantos do piága; Nem mais o valle vê esses caudilhos, Seus cocares na fronte balançando, Por entre o fumo espesso das fogueiras, Com sombrio lentor tecer, cantando, Essas solemnes e sinistras dansas, Que o festim da vingança precedião......

Por esses ermos não vereis pyramides Nem marmores, nem bronzes, que assignalem Nas éras do porvir feitos de gloria; Da natureza os filhos não sabião Aos céos erguer soberbos monumentos, E nem perpetuar do bardo os cantos, Que celebrão façanhas do guerreiro, — Esses fanaes, que acende a mão do genio, E vão no mar infindo das idades Allumiando as trevas do passado.

Seus insepultos ossos alvejando Aqui e além nos solitarios campos, Rotos tacapes, ressequidos craneos,

Que estalão sob os pés de errante gado, As tabas em ruina, e os mal extinctos Vestigios das ocáras, onde o sangue Do vencido corria em largo jorro Entre as pocemas de feroz vingança, Eis as reliquias que recordão feitos Do forte lidador da rude selva.

De virgem mata a susurrante cupola, Ou gruta escura, disputada ás féras, Ou fragil taba, n’um momento erguida, Desfeita no outro dia, erão bastantes Para abrigar o filho do deserto; No carcaz bem provido repousavão De todo o seu porvir as esperanças, Que suas erão da floresta as aves, E nem lhes nega o corrego do valle, Limpido jorro que lhe estanque a sêde. No sol, fonte de luz e de belleza, Vião seu Deos, prostrados o adoravão, Na terra a mãi, que os nutre com seus fructos, Sua unica lei — na liberdade.

Oh! floresta, que é feito de teus filhos?

Esta mudez profunda dos desertos Um crime — bem atroz! — nos denuncia. O exterminio, o captiveiro, a morte Para sempre varreu de sobre a terra Essa misera raça, — nem ficou-lhes Um canto ao menos, onde em paz morressem! Como cinza, que os euros arrebatão, Se esvaecêrão, — e do tempo a dextra Seus nomes mergulhou no esquecimento.

Mas tu, ó musa, que piedosa choras, Curvada sobre a urna do passado, Tu, que jámais negaste ao infortunio Um canto expiatorio, eia, consola Do pobre Indiano os erradios manes, E sobre a ingloria cinza dos proscriptos Com teus cantos ao menos uma lagrima Faze correr de compaixão tardia.

III.

Eil-o, que vem, de ferro e fogo armado, Da destruição o genio formidável, Em sua fatal marcha devastando

O que de mais esplendido e formoso Alardêa no ermo a natureza; Que nem sómente o incola das selvas De seu furor foi victima; — após elle Rue tambem a cupola virente, Unico abrigo seu, — sua riqueza. Esta tremula abobada, que ruge Por seculares troncos sustentada, Este silencio mystico, estas sombras, Que agora me derramão sobre a fronte Suave inspiração, scismar saudoso, Vão em breve morrer; — lá vem o escravo, Brandindo o ferro, que dá morte ás selvas, E — afanoso —põe peito á impia obra: — Já o tronco, que os seculos creárão, Ao som dos cantos do Africano adusto Geme aos sonoros, compassados golpes, Que vão nas brenhas resoando ao longe; Sôa o ultimo golpe, — range o tronco, O tope excelso tremulo vacilla, E desabando com gemido horrendo Restruge qual trovão de monte em monte Nas solidões profundas reboando. Assim vão baqueando uma após outra

Da floresta as columnas venerandas; E todas essas cupolas immensas, Que inda ha pouco no céo balanceando, A sanha dos tufões desafiavão, Ahi jazem, como ossadas de gigantes, Que n’um dia de cólera prostrára O raio do Senhor.

Oh! mais terrivel Que o raio, que o diluvio, o rubro incendio Vem consummar essa obra deploravel...... Qual hydra formidavel, no ar exalça A crista sanguinosa, sacudindo Com medonho rugido as igneas azas, E negros turbilhões de fumo ardente Das abrasadas fauces vomitando, Em horrido negrume os céos sepulta...... Estala, ruge, silva, devorando Da floresta os cadaveres gigantes; Voão sem tino as aves assustadas No ar soltando pios lamentosos, E as féras, em tropel timidas correm, A se embrenhar no fundo dos desertos,

Onde vão demandar nova guarida....... Tudo é cinza e ruina: — adeos, ó sombra, Adeos, murmurio, que embalou meus sonhos, Adeos, sonoro fremito das auras, Susurros, queixas, suspirosos échos, Da solidão mysterioso encanto! Adeos! — Em vão a pomba esvoaçando Procura um ramo em que fabrique o ninho; Em vão suspira o viajor cansado Por uma sombra, onde repouse os membros Repassados do ardor do sol a pino! Tudo é cinza e ruina, — tudo é morto!!

E tu, ó musa, que amas o deserto, E das caladas sombras o mysterio, Que folgas de embalar-te aos sons aereos D’almas canções, que a solidão murmura, Que amas a creação, qual Deos formou-a, — Sublime e bella — vem sentar-te, ó musa, Sobre estas ruinas, vem chorar sobre ellas. Chora com a avezinha, a quem roubárão O ninho seu querido, e com teus cantos Procura adormecer o ferreo braço

Do improvido colono, que semêa Sómente estragos n’este chão fecundo!

IV.

Mas, não te queixes, musa; — são decretos Da eterna providencia irrevogaveis! Deixa passar destruição e morte N’essas risonhas e fecundas plagas, Como charrua, que revolve a terra, Onde germinão do porvir os fructos. O homem fraco ainda, e que hoje a custo, Da creação a obra mutilando, Sem nada produzir destrue apenas, Amanhã creará; sua mão potente, Que doma e sobrepuja a natureza, Ha de imprimir um dia fórma nova Na face d’este solo immenso e bello: Tempo virá em que n’essa vallada Onde fluctua a coma da floresta, Linda cidade surja, branquejando Como um bando de garças na planicie; E em lugar d’esse brando rumorejo Ahi murmurará a voz de um povo;

Essas encostas broncas e sombrias Serão risonhos parques sumptuosos; E esses rios, que vão por entre sombras Ondas caudaes serenos resvalando, Em vez do tope escuro das florestas, Reflectiráõ no limpido regaço Torres, palacios, coruchéos brilhantes, Zimborios magestosos, e castellos De bastiões sombrios coroados, Esses bulcões da guerra, que do seio Com horrendo fragor raios despejão. Rasgar-se-hão os serros altaneiros, Encher-se-hão dos valles os abysmos: Mil estradas, qual vasto labyrintho, Cruzar-se-hão por montes e planuras; Curvar-se-hão os rios sob arcadas De pontes colossaes; — canaes immensos Viráõ surcar a face das campinas, E estes montes verão talvez um dia, Cheios de assombro, junto ás abas suas Velejarem os lenhos do oceano!

Sim, ó virgem dos tropicos formosa, Nua e singela filha da floresta,

Um dia, em vez da simples arasoia, Que mal te encobre o gracioso talhe, Te envolverás em fluctuantes sedas, E abandonando o kanitar de plumas, Que te sombrêa o rosto côr de jambo, Apanharás em tranças perfumadas A coma escura, e dos donosos hombros Finos véos penderáõ. Em vez da rêde, Em que te embalas da palmeira á sombra, Repousarás sobre coxins de purpura, Sob doceis esplendidos. — O’ virgem, Serás então princeza, — forte e grande, Temida pelos principes da terra; E de brilhante aureola cingida Sobre o mundo alçarás a fronte altiva! Mas, quando em tua mente revolveres As memorias das éras que já forão, Lá quando dentro d’alma despertares Do passado lembranças quasi extinctas, Dos bosques teus, de tua rude infancia Talvez terás saudade.