Portuguese poem
Primeiro sonho de amor
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
Que tens, donzella, que tão triste pousas Na branca mão a fronte pensativa, E sobre os olhos dos compridos cilios O negro véo desdobras?
Que sonho merencorio hoje fluctua Sobre essa alma serena, que espelhava A imagem da innocencia?
Ainda ha pouco eu via-te na vida, Qual entre flôres douda borboleta, Brincar, sorrir, cantar...
E nos travessos olhos de azeviche, De vivos raios sempre illuminados, Sorrir doce alegria!
Branco lirio de amor aberto apenas, Em cujo puro seio brilha ainda A lagrima da aurora,
Acaso sentes já nos tenros petalos O nimio ardor do sol crestar-te o viço, Vergar-te o fragil collo?...
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Com sonhos que envolvem-te em doce tristeza De vago scismar:
São nuvens ligeiras, tingidas de rosa, Que pairão nos ares, a aurora enfeitando De gala formosa.
É bella essa nuvem de melancolia Que em teus lindos olhos desmaia o fulgor, E as rosas das faces em lirios transforma De meigo palor.
Oh! que essa tristeza tem doce magia, Qual luz que esmorece lutando co’as sombras Nas vascas do dia.
É bello esse encanto do affecto primeiro, Que assoma envolvido nos véos do pudor, E ondêa ancioso no seio da virgem Que scisma de amor.
Estranho preludio de mystica lyra, A cujos accentos o peito afanoso Se agita e suspira.
Com sonhos dourados, que os anjos te inspirão, Embala, ó donzella, teu vago pensar, São castos mysterios de amor, que no seio Te vêm murmurar:
Sim, deixa pairarem na mente esses sonhos, São roseos vapores, que os teus horizontes Enfeitão risonhos:
São vagos anhelos.... mas ah! quem te dera Que n’esses teus sonhos de ingenuo scismar A voz nunca ouvisses, que vem revelar-te Que é tempo de amar.
Pois sabe, ó donzella, que as nuvens de rosa, Que pairão nos ares, ás vezes encerrão Tormenta horrorosa.