Portuguese poem
Sunt lacrimæ rerum
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
Estas, que ides ouvir, canções singelas, Forão de uma alma candida exhaladas, Que muito soube amar, E que da vida as horas apressadas Todas gastou em render culto ás bellas, Sem nunca se cansar.
Seu terno coração já des do berço Scismava só de amores, E nos mais verdes annos já provava Das paixões o prazer e os amargores.
Pobre homem! — gozou e soffreu muito,
Colheu muita lição; Mas nunca pôde encher o vacuo immenso De seu insaciavel coração: E ama ainda, o triste! — inda acredita, Que sem amor no mundo não ha dita!...
E agora, emquanto vão seus dias pallidos Para o occaso da vida descambando, Evocando lembranças de outros tempos Vai amores passados ruminando; Bem como quem, ao coração cingindo Um ramalhete de mirradas flôres, Co’ pranto da saudade avivar tenta O aroma e o viço das perdidas côres.
Não penseis que sou eu; — ha muito tempo, Lá bem longe.... das brenhas na espessura, Deixei perdida a lyra dos amores, Que por vezes a mão da formosura Engrinaldava de silvestres flôres.
Lá bem longe, — no seio das florestas, Um dia eu esqueci-a pendurada No tronco de frondosa copaíba,
Pelas auras da tarde balouçada Em solitaria riba;
Depois de ter cantado longamente Meus ultimos amores, E de mesclar de minha amada o nome Do dia extincto aos ultimos rumores.
Da noite o furacão impetuoso Rugindo nos espaços Arrojou-a no abysmo tenebroso Desfeita em mil pedaços.