Portuguese poem
Terceira evocação
by Bernardo Guimarães (1825–1884)
Por fim vens tu, minha silvestre rola, Roçar-me o rosto co'as travessas asas, Pousar-me ao ombro e com fagueiro arrulho Dizer que em chamas só por mim te abrasas.
Oh! que lembranças na minha alma acordas!... De nosso amor a malfadada história, As tristes ânsias, a fugaz ventura, Inda bem vivas tenho na memória.
Eis-te tão bela, qual eu vi-te outrora Pousada à sombra do jambeiro em flor; Teus lindos seios de cansaço arfavam, E a calma intensa te avivava a cor.
Dos bosques vinhas, onde volitando Flores e frutos a colher andavas; Flores e frutos, que do teu regaço Na relva em torno trêfega entornavas.
És sempre assim! - de tua primavera Tu vais à toa despencando as flores; E os imaturos frutos que colheste, Os lábios teus encheram de amargores.
Bosques e montes lépida corrias, Qual das cidades a elegante filha De seu jardim as alinhadas ruas Cismando amores descuidada trilha.
Quão luzidia te tombava a coma Por sobre o colo e face cor de jambo; Tal ser devia, porém não tão bela, A linda esposa do infeliz Cacambo.
"Tímida corça, que incessante vagas Do vale ao monte, da floresta ao prado, Deixa, eu te peço, essa fragueira lida, E nesta sombra vem pousar-me ao lado."
Assim te eu disse, e me escutando as vozes A linda fronte reclinar vieste Em meus joelhos, e com meigo riso As róseas faces a beijar me deste.
Ah! que essas horas de fugaz ventura De agros martírios eram precursoras; Eram quais flores nas lúbricas margens De fundo abismo a vicejar traidoras.
Da vida enquanto te reluz a aurora Por entre abismos a cantar vagueias; Ah! e quem sabe, que colheita amarga De angústia e mágoas a sorrir semeias?!
Tal a gaivota descuidosa pousa E se embalança na cerúlea vaga De feio golfão, que mil monstros nutre, E naus possantes no seu bojo traga.
Tímida corça, que eu amava tanto, Por que comigo te tornaste fera?... E em devorar-me o coração sangrento Tu te aprazias, qual feroz pantera?...
Por que... mas ah! de que me serve agora De tal passado renovar as penas?... Não é melhor de nossas desventuras Um véu lançar sobre as pungentes cenas?
Hoje contigo só desejo, amada, De meu passado respirar as flores; Que no futuro inquietações não faltam, E no presente me sobejam dores.
Com vãos queixumes perturbar não devo Desta entrevista a bem-fadada hora, Que tu, lembrando nossa antiga chama, Branda quiseste conceder-me agora.
Já deslembrado dos passados erros, Só sinto agora quanto és meiga e linda: Oh! nessas faces, que já foram minhas, Deixa que um beijo deposite ainda...
Mas já procuras de teu bosque as sombras, Em leve giro retalhando os ares; Se num momento a meu chamado acodes, Noutro me foges, sem sentir pesares.
Adeus! se a sorte ou desvarios nossos A tanto amor deram funesto fim, Fiel saudade dele guarda ao menos Lá no teu ermo, e lembra-te de mim...
Rio, agosto de 1864.