Versos Portuguese Camilo Castelo Branco Salve, Rei!

Portuguese poem

Salve, Rei!

by (1825–1890)

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Cantor d'outr'ora, quando vi sem flores Os magicos jardins da phantasia, Minha lyra depuz. Não mais pedi inspirações terrenas. Curvei-me ante o altar, sagrei meu estro Aos canticos da cruz.

E, sem magoa, quebrei prisões da terra, Mas uma, se então quiz tambem quebral-a, Não pude... em vão tentei... Eram saudades a viver d'esp'ranças, Saudades, que nem Deus manda esquecel-as, Saudades do meu Rei!

Ficava-me no mundo um nome grande, Um symbolo d'amor, de luz radiante, Sob um manto real... Imagem do que vi na minha infancia, Sentado no docel, herança augusta Dos Reis de Portugal

Christão, pedi com fé--senti que a tinha Prostrado ante o altar, quando eu pedi Recursos ao meu Deus... Recursos, não pr'a mim que nasci servo, Recursos para Vós, Rei desterrado Sob inhospitos céus!--

Pulsou-me o coração, senti no labio, Em vez da oração, soltar-se o hymno D'um peito portuguez! Ás lagrimas succede essa alegria Dos extasis que á mente imprimem vôos D'energica altivez!

Rei! no dia em que descestes Do Vosso throno real Apagou-se a luz da gloria, Cerrou-se o livro da historia Do Reino de Portugal. Surge o anjo do exterminio Sobre as trevas infernaes! Traz de fogo a fera espada, E com mão ensanguentada Rasgas as purpuras reaes.

Sobre o solio dos Affonsos Ferreo sceptro esmaga a lei: Ruge alli o despotismo Se não verga ao servilismo Quem lhe diz «Tu não és Rei!» Não és Rei! és uma affronta Feita ao povo portuguez! Não és Rei que não herdaste Este chão que escravisaste A quem falso Rei te fez!

Vaga o anjo do exterminio Como inspiração do algoz! Corações com Vossa imagem, Oh meu Rei! são a carnagem Do punhal que fere atroz! Foram dias de martyrio, De terror e maldição! Mas o martyr, expirando, Esquecia-Vos só quando Lhe morria o coração!

Vaga o anjo do exterminio Do mosteiro sobre a cruz, E roçando a negra aza Pela cruz o templo arraza E do altar extingue a luz. Cospe injurias e sarcasmo Sobre a face do ancião, Porque orava, é réo, e expulso Foge á morte, e cede ao impulso De penuria, e pede pão.

Pede o pão que amassa em pranto De saudades que crê vem D'uma cella que comprára Quando o mundo cá deixára Com as pompas que elle tem! Pede o pão que lhe usurparam Com tamanho desamor... Fraco, ao vêr que chega a morte, Morre... e então mostra que é forte Perdoando ao matador!

Lá, no campo da carnagem, Mutilado um corpo jaz... Ficaram-lhe alli seus ossos... Pois que foi um d'entre os Vossos Real Senhor! não terá paz. Nem a paz dos que morreram Sem a nodoa da traição Nem a paz da sepultura Ao fiel que honrado jura Morrer sob o seu pendão

Lá se abraça ao corpo exangue No abandono da viuvez A que alli vive arrastada Mendigando, envergonhada, Improperios... talvez! Pobre, e só, mãe de tres filhos Quando a fome a constrangeu, Inda assim, um pensamento, Uma esperança, um grato alento Foi por Vós que o concebeu...

Vaga o anjo do exterminio Enverga o manto real; D'um diadema a fronte cinge, Mas o sangue que lh'o tinge Brada vingança fatal! N'essa fronte ensanguentada Escreveu a mão de Deus!... Mas tambem homens puzeram Inscripções onde se leram Infamias como tropheus!

Oh Rei de Portugal! Quando a amargura D'este povo infeliz, é sem conforto, Valemo-nos do céu! Pedimos-lhe por Vós, anjo proscripto, Pedimos-lhe vigor á doce espr'ança Que em vós o céu nos deu!

Vireis, Senhor vireis, que Deus é justo! Vireis enxugar lagrimas amargas Que se choram por Vós! Sereis de todos Pae, não vingativo, E nós todos irmãos, e Vós de todos... O Rei de todos nós!

Fatidica aureola circumda Nas plagas do desterro dolorosas Vossa fronte real. Sentado sobre as rochas da montanha Lá mesmo na solidão d'amargo exilio Sois Rei de Portugal!

Deu-vos um anjo a Providencia augusta Em galardão á dôr que amargurastes Com Santa intrepidez. Um dia curvaremos o joelho Perante Essa que o ceu fadou Rainha Do povo portuguez.

Camillo Castello Branco