Portuguese poem
Amor e medo
by Casimiro de Abreu (1839–1860)
I Quanto eu te fujo e me desvio cauto Da luz de fogo que te cerca, oh! bela, Contigo dizes, suspirando amores: "- Meu Deus! que gelo, que frieza aquela."
Como te enganas! meu amor é chama Que se alimenta no voraz segredo, E se te fujo é que te adoro louco... És bela - eu moço; tens amor - eu medo!
Tenho medo de mim, de ti, de tudo, Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes, Das folhas secas, do chorar das fontes, Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores, A luz da aurora me intumesce os seios, E ao vento fresco do cair das tardes Eu me estremeço de cruéis receios.
É que esse vento que na várzea - ao longe, Do colmo o fumo caprichoso ondeia, Soprando um dia tornaria incêndio A chama viva que teu riso ateia!
Ai! se abrasado crepitasse o cedro, Cedendo ao raio que a tormenta envia, Diz: - que seria da plantinha humilde Que à sombra dele tão feliz crescia?
A labareda que se enrosca ao tronco Torrara a planta qual queimara o galho, E a pobre nunca reviver pudera Chovesse embora paternal orvalho!
II Ai! se eu te visse no calor da sesta, A mão tremente no calor das tuas, Amarrotado o teu vestido branco, Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
Ai! se eu te visse, Magdalena pura, Sobre o veludo reclinada a meio, Olhos cerrados na volúpia doce, Os braços frouxos - palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime, Na face as rosas virginais do pejo, Trêmula a fala a protestar baixinho... Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: - que seria da pureza d'anjo, Das vestes alvas, do candor das asas? - Tu te queimaras, a pisar descalça, - Criança louca, - sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro! Ébrio e sedento na fugaz vertigem Vil, machucara com meu dedo impuro As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos Toda a inocência que teu lábio encerra, E tu serias no lascivo abraço Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio, - Olhos pisados - como um vão lamento, Tu perguntaras: - qu'é da minha c'roa?... Eu te diria: - desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo! Bem vês: traí-me no fatal segredo. Se de ti fujo é que te adoro e muito, És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!...