Versos Portuguese Cesário Verde Ao Gaz

Portuguese poem

Ao Gaz

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E saio. A noite peza, esmaga. Nos Passeios de lagedo arrastam-se as impuras. Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras Um sopro que arripia os hombros quasi nús.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso Ver cirios lateraes, ver filas de capellas, Com santos e fieis, andores, ramos, velas, Em uma cathedral de um comprimento immenso.

As burguezinhas do Catholocismo Resvalam pelo chão minado pelos canos; E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

N'um cutileiro, de avental, ao torno, Um forjador maneja um malho, rubramente; E de uma padaria exhala-se, inda quente, Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exarcebe, Quizera que o real e a analyse m'o dessem; Casas de confecções e modas resplandecem; Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar Com versos magistraes, salubres e sinceros, A esguia diffusão dos vossos reverberos, E a vossa pallidez romantica e lunar!

Que grande cobra, a lubrica pessoa, Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquella velha, de bandós! Por vezes, A sua traîne imita um leque antigo, aberto, Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

Desdobram-se tecidos estrangeiros; Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco; Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

«Dó da miseria!... Compaixão de mim!...» E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de latim!