Versos Portuguese Cesário Verde Desastre

Portuguese poem

Desastre

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Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito, Soltando fundos ais e trêmulos queixumes; Caíra dum andaime e dera com o peito, Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças, Como uma mãe erguia ao leito os cortinados, E dentro eu divisei o ungido das desgraças, Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal, Chorava ao murmurar-lhe: "Homem não desfaleça!" E um lenço esfarrapado em volta da cabeça, Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Findara honrosamente. As lutas, afinal, Deixavam repousar essa criança escrava, E a gente da província, atônita, exclamava: "Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!"

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos; Mornas essências vêm duma perfumaria, E cheira a peixe frito um armazém de vinhos, Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada e duas prostitutas: "Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!" Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer, De bagas de suor tinha uma vida cheia; Levava a um quarto andar cochos de cal e areia, Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

O mísero a doença, as privações cruéis Soubera repelir - ataques desumanos! Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecera então. O féretro sinistro Cruzou com um coupé seguido dum correio, E um democrata disse: "Aonde irás, ministro! Comprar um eleitor? Adormecer num seio"?

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro, - Conservador, que esmaga o povo com impostos -, Mandava arremessar - que gozo! estar solteiro! - Os filhos naturais à roda dos expostos...