Versos Portuguese Cesário Verde Responso

Portuguese poem

Responso

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I Num castelo deserto e solitário, Toda de preto, às horas silenciosas, Envolve-se nas pregas dum sudário E chora como as grandes criminosas.

Pudesse eu ser o lenço de Bruxelas Em que ela esconde as lágrimas singelas.

II É loura como as doces escocesas, Duma beleza ideal, quase indecisa; Circunda-se de luto e de tristezas E excede a melancólica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados E havia de escutar-lhe os seu pecados.

III Alta noite, os planetas argentados Deslizam um olhar macio e vago Nos seus olhos de pranto marejados E nas águas mansíssimas do lago.

Pudesse eu ser a Lua, a Lua terna, E faria que a noite fosse eterna.

IV E os abutres e os corvos fazem giros De roda das ameias e dos pegos, E nas salas ressoam uns suspiros Dolentes como as súplicas dos cegos.

Fosse eu aquelas aves de pilhagem E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V E ela vaga nas praias rumorosas, Triste como as rainhas destronadas, A contemplar as gôndolas airosas, Que passam, a giorno iluminadas.

Pudesse eu ser o rude gondoleiro E ali é que fizera o meu cruzeiro.

VI De dia, entre os veludos e entre as sedas, Murmurando palavras aflitivas, Vagueia nas umbrosas alamedas E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquelas árvores frondosas, E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII Ou domina, a rezar, no pavimento Da capela onde outrora se ouviu missa, A música dulcíssima do vento E o sussurro do mar, que se espreguiça.

Pudesse eu ser o mar e os meus desejos Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

VIII E às horas do crepúsculo saudosas, Nos parques com tapetes cultivados, Quando ela passa curvam-se amorosas As estátuas dos seus antepassados.

Fosse eu também granito e a minha vida Era vê-la a chorar arrependida.

IX No palácio isolado como um monge, Erram as velhas almas dos precitos, E nas noites de inverno ouvem-se ao longe Os lamentos dos náufragos aflitos.

Pudesse eu ter também uma procela E as lentas agonias ao pé dela!

X E às lajes, no silêncio dos mosteiros, Ela conta o seu drama negregado, E o vasto carmesim dos reposteiros Ondula como um mar ensangüentado.

Fossem aquelas mil tapeçarias Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI E assim passa, chorando, as noites belas, Sonhando uns tristes sonhos doloridos, E a refletir nas góticas janelas As estrelas dos céus desconhecidos.

Pudesse eu ir sonhar também contigo E ter as mesmas pedras no jazigo!

XII Mergulha-se em angústias lacrimosas Nos ermos dum castelo abandonado, E as próximas florestas tenebrosas Repercutem um choro amargurado.

Uníssemos, nós dois, as nossas covas, Ó doce castelã das minhas trovas!