Versos Portuguese Cesário Verde Os Irmãosinhos

Portuguese poem

Os Irmãosinhos

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Pois eu, que no deserto dos caminhos, Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; Eu, que apartava as mansas das velhacas, Fugia com terror dos pobresinhos!

Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço! Os velhos, que nos rezam padre-nossos; Os mandriões que rosnam, altos, grossos; E os cegos que se apoiam sobre o moço.

Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros, Ou que a poeira no suor mascarra, Chegam das feiras a tocar guitarra, Rolam os olhos como dois escarros!

E os pobres mettem medo! Os de marmita, Para forrar, por anno, alguns patacos, Entrapam-se nas mantas com buracos, Choramingando, a voz rachada, afflicta.

Outros pedincham pelas cinco chagas; E no poial, tirando as ligaduras, Mostram as pernas putridas, maduras, Com que se arrastam pelas azinhagas!

Querem viver! E picam-se nos cardos; Correm as villas; sobem os outeiros; E ás horas de calor, nos esterqueiros, De roda d'elles zumbem os moscardos.

Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, Batiam ao portão com seus cajados; E um aleijado com os pés quadrados, Pedia-nos de cima de um jumento.

O resmungão! Que barbas! Que saccolas! Cheirava a migas, a bafio, a arrotos; Dormia as noutes por telheiros rotos, E sustentava o burro a pão d'esmolas.

* * * * *

Ó minha loura e doce como um bolo! Affavel hospeda na nossa casa, Logo que a torrida cidade abraza, Como um enorme fôrno de tijolo!

Tu visitavas, esmoler, garrida, Umas creanças n'um casal queimado; E eu, pela estrada, espicaçava o gado, N'uma attitude esperta e decidida.

Por lobishomens, por papões, por bruxas, Nunca soffremos o menor receio. Temieis vós, porém, o meu aceio, Mendigasitas sordidas, gorduchas!

Vicios, sezões, epidemias, furtos, De certo, fermentavam entre lixos; Que podridão cobria aquelles bichos! E que luar nos teus fatinhos curtos!

* * * * *

Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, Ruça, descalça, a trote nos atalhos, E que lavava o corpo e os seus retalhos No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.

E a douda a quem chamavam a «Ratada» E que fallava só! Que antipathia! E se com ella a malta contendia, Quanta indecencia! Quanta palavrada!

Uns operarios, n'estes descampados, Tambem surdiam, de chapeu de côco, Dizendo-se, de olhar rebelde e louco, Artistas despedidos, desgraçados.

Muitos! E um bebedo--o Camões--que fôra Rico, e morreu a mendigar, zarolho, Com uma pala verde sobre um olho! Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

E o resto? Bandos de selvagensinhos: Um nú que se gabava de maroto; Um, que cortada a mão, coçava o coto, E os bons que nos tratavam por padrinhos.

Pediam fatos, botas, cobertores! Outro jogava bem o pau, e vinha Chorar, humilde, junto da coxinha! «Cinco réisinhos!... Nobres bemfeitores!...

E quando alguns ficavam nos palheiros, E de manhã catavam os piolhos: Emquanto o sol batia nos restolhos E os nossos cães ladravam, resingueiros!

Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos, Dos surdos, dos manhosos, dos manetas. Sulcavam as calçadas, de muletas; Cantavam, no pomar, os pintarroxos!