Portuguese poem
VI (Na diáfana máquina presente)
by Cláudio Manuel da Costa (1729–1789)
Na diáfana máquina presente (Diz Filoponte) todo o continente Vês, Albuquerque, das buscadas Minas. São estas, são as regiões benignas, Onde nutre a perpétua primavera As verdes folhas, que abrasar pudera Em outros climas o chuvoso inverno. Dos mesmos Deuses o poder eterno Não se atrevera a combater os montes
E as serras, que em distintos horizontes Murando vão pelos remotos lados Mares e lagos, com que ao Sul marcados Seus limites estão: a forma, o nome Variam serra e rio, e sem que tome Firmeza alguma o prolongado vulto, Sempre o princípio te há de ser oculto, Quando chegues ao fim do rio ou serra. Levados do fervor que o peito encerra Vês os Paulistas, animosa gente, Que ao Rei procuram do metal luzente Co'as próprias mãos enriquecer o Erário. Arzão é este, é este o temerário, Que da Casca os sertões tentou primeiro. Vê qual despreza o nobre aventureiro Os laços e as traições, que lhe prepara Do cruento Gentio a fome avara.
A exemplo de um contempla iguais a todos, E distintos ao Rei por vários modos Vê os Pires, Camargos e Pedrosos, Alvarengas, Godóis, Cabrais, Cardosos, Lemos, Toledos, Paes, Guerras, Furtados, E os outros, que primeiro assinalados Se fizeram no arrojo das conquistas, Ó grandes sempre, ó imortais Paulistas! Embora vós, Ninfas do Tejo, embora Cante do Lusitano a voz sonora Os claros feitos do seu grande Gama, Dos meus Paulistas louvarei a fama. Eles a fome e sede vão sofrendo, Rotos e nus os corpos vêm trazendo; Na enfermidade a cura lhes falece, E a miséria por tudo se conhece.
Em seu zelo outro espírito não obra Mais que o amor do seu Rei: isto lhes sobra. Abertas as montanhas, rota a Serra, Vêconverter-se em ouro a pátria terra; O Etíope co'os Índios misturado Eis obedece ao próvido mandado Dos bons Conquistadores: desde o fundo, De ouro e diamantes o país fecundo Produzas grandes, avultadas somas. Tu por empresa, nobre engenho, tomas Fabricar inda o esférico instrumento, Que o trabalho fará menos violento.
Já dos rebeldes o esquadrão ferino Se conjura afazer o roubo indigno, Tomando outro partido esses, que devem Respeitar um só Rei; ímpios se atrevem A lançar desde os lares, que têm feito Os míseros Vassalos: o preceito Intimado na voz do Rei lhes tira As armas, um e outro se conspira, E em vários choques, em ataques vários, Ou morrem já, ou buscam solitários E fugitivos o seu pátrio berço. Ide, infelices; o ânimo perverso Cessará uma vez de maltratar-vos; O Rei sabe puni-los, sabe dar-vos Justa satisfação, justa vingança. Sobre eles vem Fernando; mas o lança Inda o furor da levantada gente; Volta a munir-se o Capitão valente, E a vosso beneficio já protesta: Fará cair ao chão mais de uma testa.
Já dos parentes, dos amigos vossos Se vão juntando e vêm correndo os grossos Esquadrões, que pertendem desde a Serra Fazer aos ímpios a sangüínea guerra; Mas tu sucedes, Albuquerque invicto, No bastão a Fernando; o Rei prescrito As ordens te tem já, porque temperes O orgulhoso furor: não consideres Tão segura porém a tua entrada; A vil conspiração mal apagada Inda ao longe te forja e te fulmina Nos levantados Chefes a ruína.
Tens ao teu lado a próvida influência Do pátrio Gênio; contra uma violência Outras suscitarei; lá desde o seio Das mesmas Minas, um incêndio ateio Nos ilustres Pereiras: estes passam A disputar co'os outros e se enlaçam Em vingar os domésticos insultos. Vós e os mais vossos passareis ocultos E disfarçados aos distritos, onde Dos rebeldes o número se esconde. Lá convosco estarei, e... prosseguia, Mas de uma e outra parte concorria Buscando o Herói a comitiva, crendo Que aos matos se entranhara e que, perdendo Talvez o rumo, duvidoso errava. Faria já com eles se ajuntava, E Garcia, que o rosto traz magoado Do sucesso infeliz que tem notado.
Tudo desaparece neste instante Ao assombro da nuvem, que diante Da penha condensara o Gênio astuto. Um chuveiro cerrado desde o bruto
Cume da rocha se estendia, e nada Mais que a sombra na lôbrega morada Se deixa perceber por tudo quanto Detivera ao Herói no estranho encanto.
Ao passo que se assusta e se entristece Das imagens que vira, restablece O espírito no amparo prometido Do Gênio, em quem contempla introduzido O influxo de alguma alta inteligência, Que se encobre dos homens na aparência.
Alegre sai da nuvem, que desata, E no arcano mais íntimo recata O que ouve e vê, notando os companheiros; Que é isto, diz, chegastes mui ligeiros, Vós, Padre, e vós, Garcia! A vossa empresa Talvez se conseguiu com mais presteza Do que eu tinha esperado: em doce laço, Dizei, já vive Aurora? Vive Argasso?
Ah! Senhor, diz Fialho (que Garcia, Os olhos rasos d'água, mal podia Falar, e quase absorto o Herói saúda), O caso é tão funesto, que na muda Mágoa só pode cabalmente ouvir-se.
Saímos há seis dias; descobrir-se A Aldeia pouco já se começava; Aos acenos de Argasso festejava O Monaxós alegre a nossa vinda; Não tardou de saber a crua Eulinda, Rival de Aurora, o firme pensamento Do meditado Santo Sacramento; Conspirou em seu dano, e de ira cheia A cova
foi buscar de Teriféia: Esta a superstição teve por nome, Inocentes meninos traga e come.
Dous arrancados dos maternos peitos Lhe leva a crua Indiana; ela desfeitos Os tem já entre as presas aguçadas: "Eu vi (contou algum) que sufocadas As cãs estavam de seu sangue, e quentes Brotavam dentre os beiços as correntes." Do destroço fatal contente a velha, Nas vítimas, que Eulinda lhe aparelha, A dar-lhe ajuda alegre se convida.
A instâncias de Garcia está rendida Em breve instante Aurora; nem se assusta Ao proposto Himeneu, e crê que é justa A persuasão, ao ver que afaz Garcia. Do antigo amor de todo se esquecia Um e outro; e a virtude só pertendem Acreditar no estímulo, que acendem Dentro em seus corações, de propagada Ver uma vez a religião amada.
Ao Índio instruo nos mistérios Santos Da ortodoxa doutrina; e longe encantos, Superstições e mágicas, já creio Que tenho descoberto nele um meio De derramar por entre os mais a cura Da radicada antiga desventura.
Contentes andam todos pela Aldeia, Festejando o consórcio; qual passeia, Calçados pés e mãos de várias plumas, Qual faz soar o apito (nem presumas)
Que se ignora da música o concerto Entre os crus Monaxós); já vinha perto O dia ao caro laço destinado; O Cacique, do amor estimulado Que tem pelos seus hóspedes, destina Que divididos vão pela colina, E que desçam ao vale os que destreza Têm no dardo e na flecha; encher a mesa Intenta com a caça, que sepulta Nos seus seios a gruta mais oculta; Brindar quer os mais índios deste modo: Convida desde já ao povo todo. Ele próprio à fadiga não se nega; Arremessa-se ao mato. Aurora pega No seu arco também; todos se atiram Ao fundo espesso, e pelas brenhas giram. Teriféia a ocasião julga oportuna, Põe os olhos no Céu, alta coluna Levanta e firma em terra; já sobre ela Se ergue e murmura, e nota cada estrela Com o dedo; depois desce, e riscando Muitas vezes em roda, vai tocando A coluna, que treme e que se move: Tolda-se em sombra o ar, troveja e chove; E o tronco, dentre a nuvem que o cobrira, Sai figurando um tigre, que respira Fogo e veneno pelos olhos; passa Com ele ao monte, e o guia aonde a caça Se tenta e busca: aqui dormia Aurora; Dormia; e junto aos pés branda e sonora Fontezinha o repouso convidava; O peito em grande parte debruçava Sobre uma penha, e ao gesto brando e lindo
De encosto o mole braço está servindo. Chega a Maga cruel, põe-lhe diante A fera que conduz, e ao mesmo instante Se oculta em parte onde o sucesso veja. O cuidado de a ver, ou fosse a inveja, Àquele sítio encaminhava os passos Do destemido Argasso; entre embaraços De mal distintos ramos, já descobre O mosqueado tigre, ao braço nobre O crê despojo, e de matá-lo espera; Firme o pé desde longe aponta a fera, E atrás puxando o braço a seta envia, Que vai cravar no monstro aponta fria. Corre gritando - oh! Céus! - e vê passado De Aurora o peito; em vão busca assombrado O tigre, que não há; já desfalece A pouco a pouco a bela; a mágoa cresce No mísero homicida, clama e grita, Atroa os Céus, e contra os Céus se irrita; Nem mais a vida, que estimara, preza; Arroja o arco, e à infeliz beleza Consagra de seu corpo o último resto. "Amor, disse, cruel, pois que funesto Foi o fim de um princípio tão ditoso, Pois que cortastes o vínculo gostoso Que a dita, a mesma dita ia tecendo; Bem que inocente o impulso inda estou vendo, Que animou este braço, acabe o peito, Onde ele se forjou; roto e desfeito O véu que cerca esta alma, ela se aparte, Indiana adorada, ou a pagar-te Com seu eterno pranto a dura ofensa, Ou a pôr de teus olhos na presença, A mágoa enfim de um erro involuntário."
Disse; e trepando a penha, ao chão contrário Desesperado já se precipita. Teriféia de longe aos índios grita, E alegre da vitória deixa o monte; Não há quem visse, ou quem a história conte: Mas da homicida bárbara informada Já torna Eulinda; furiosa brada A Aldeia, por vingar tanta maldade; Sobre nós faz cair a atrocidade Do delito, e abrasando a Aldeia inteira De oculta chama, que ateou ligeira, Ministros nos faz crer deste atentado: A fuga nos salvou, nem avisado Serias de um tão trágico sucesso, Se de Argasso um rival, que a tanto preço Eulinda amava, então não descobrira Tudo o que a Eulinda e a Teriféia ouvira.
Calou Fialho; em vão susteve o pranto Albuquerque; e notando que o quebranto De Garcia a rendê-lo se avançava, Consolando seu mal, assim falava: Jamais se viu segura uma alegria, Nem estável jamais pôde algum dia Sustentar-se a fortuna de um ditoso: Espere sempre o inverno proceloso Aquele por quem passa a primavera; Amor que em brandas almas só pudera Empregar toda a força de seus tiros, Fará que troque as glórias em suspiros Aquele que em vão crera aos desenganos; Ó vós, felices, vós, que os doces anos Entregais à virtude, eu vos agouro O sempre imarcescível, fresco louro, Que vos há de levar na longa idade Muito além da cansada humanidade.