Versos Portuguese Cláudio Manuel da Costa VIII (Entretanto que o Gênio se cansava)

Portuguese poem

VIII (Entretanto que o Gênio se cansava)

by (1729–1789)

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Entretanto que o Gênio se cansava Nesta empresa, o Interesse fomentava Novas discórdias; e do altar impuro, Aos sussurros de um fúnebre conjuro, Subir fazia desde o horrível centro Vorazes Fúrias, e do Abismo dentro A guerra ateia, que aos mortais destroça; Tiram bravos leões uma carroça, Em cujo assento aparecer se via Com vulto horrendo a infame Rebeldia; Víboras os cabelos são, que estende Sobre a enrugada testa; um Etna acende Em cada olho, e da boca em cada alento O veneno vomita o mais violento.

Tem por despojos a seus pés caídas Púrpuras rotas, destroçadas vidas De Reis, de Imperadores; vem cercada Da Traição e do Engano, e disfarçada Entre estes monstros com fingido rosto A Hipocrisia tem seu trono posto.

Este ídolo cruel, que se autoriza Mais entre os outros, porque estraga e pisa Com mudo pé dos Grandes as moradas, Tendo a seu lado as Fúrias convocadas, E entrando em parte já co'a Rebeldia, Ao Nume do Interesse assim dizia:

Sei que vacila o teu arrojo, e vejo Que muito além do natural desejo Vão correndo as cansadas diligências, Com que até aqui no esforço das violências Quisemos impedir a triste entrada Deste Herói, que nos traz ameaçada Toda a ruína de uma longa idéia. Se talvez sombra vã não lisonjeia Meus altos pensamentos, eu discorro Que a mim me toca só dar o socorro Ao decadente impulso desta empresa. Não sei de que triunfo na certeza Eu me prometo um dia a segurança De uma eterna, pacífica bonança. Se passou Albuquerque, e tem rompido Ao centro destas Minas, destruído Eu verei de uma vez o seu projeto. Tomo a meu cargo simular o aspecto De uma rendida sujeição, levando Na lisonja encoberto o insulto, e quando Ele acredite mais nossa obediência,

Farei que, rota a máscara, a violência Dentro dos nossos braços o acometa; Que morra a frio sangue, ou que se meta Às brenhas fugitivo, e busque a estrada Que lembra de Fernando a retirada.

Assim falava a torpe Hipocrisia, O Engano co'a Traição já se lhe unia; Aprovava o Interesse a idéia insana, A Rebeldia se gloriava ufana; E por todos o alento suscitado, Se alegram, crendo já executado Tudo quanto entre as Fúrias se medita. Vão buscando os Chefes; corre, e grita A infame esquadra de uma e outra Fúria: Pouco se afligem da passada injúria. Cortam desde o seu templo os crespos ventos; E ao hábito nocivo, aos pestilentos Influxos, que derramam, se enche tudo De serpentes, de feras, que de agudo Veneno têm a fauce infeccionada. Talvez não viste tu, Líbia abrasada, De monstros mais coberta a tua areia, Quando o Filho de Acrísio ali semeia O sangue da cabeça que cortara O ferro, de que a Deusa a mão lhe armara. Mas já, Garcia amante, me convidas A descrever as horas entretidas Nos braços a que Eulina te trouxera. Dentro da mansa e dilatosa esfera Do peregrino Rio entrado havia O Mancebo feliz, e já se via

Pisando de uma sala o pavimento; Por tudo refletia o luzimento Da riqueza, que os tetos esmaltava; Sobre colunas de cristal estava Sustentado o edifício; delas pendem Lâminas de ouro, onde seu rosto acendem Em vivo resplandor Varões egrégios. Da Fortuna e do Tempo os privilégios Inculcam dominar; nas mãos sustentam As insígnias do mando, e representam A Régia Autoridade: em cada testa Lhes verdeja o laurel que manifesta A duração da imarcescível Fama. Eulina, que Garcia ao lado chama, Em um assento de ouro marchetado Lhe tem junto a uma mesa preparado O brinde da mais rara formosura. Cem taças de ouro são, onde procura Mostrar-lhe aos olhos quanto desentranha De mais precioso o Rio, ou a Montanha. Cerrava um branco véu logo diante Uma estância; rasgou-se, e em breve instante Deixou ver recortado junto a um monte O venerando rosto de Itamonte. Era de grossos membros a estatura, Calva a cabeça, a cor um pouco escura, De muitos braços, qual a idade vira Tifeu, que a dura Terra produzira.

Quase a seus pés, o corpo debruçando Sobre um punhal, estava trespassando O peito um gentil Moço; da ferida Uma fonte brotava, que estendida Com as vermelhas águas rega a areia.

Eulina, que nas graças não receia Competir co'a Deidade que o Mar cria, De transparente garça se vestia, Toda de flores de ouro matizada: A cabeça de pedras tem toucada, Deixando retratarem-se as estrelas Em seus olhos; tão ricas, como belas, Muitas Ninfas em roda a estão cercando, Nas lindas mãos nevadas sustentando Os tesouros que oculta e guarda a Terra (Tristes causas do mal, causas da guerra!).

Niséia em uma taça oferecia Um monte de custosa pedraria, Em que estão misturados os diamantes, Co'as safiras azuis, e co'os brilhantes Topázios, co'os rubis, co'as esmeraldas Que servem de esmaltar essas grinaldas, De que as Ninfas do Rio ornam a frente.

Em outra taça do metal luzente, Copioso monte apresentava Loto, Por extremo formosa; desde o roto Seio do Rio o louro pó juntara; Dele costuma usar Eulina clara Para dar novo lustre a seus cabelos. Parece que a fadiga dos martelos Batem o mesmo pó coalhado ao fogo, Pois deixada esta taça e olhando logo Para outra que Licenda na mão tinha, Nelas de barras mil um monte vinha, Em que o divino pó se convertera.

Não tardava a chegar branda, e sincera, A mimosa Leutipo: esta ofertava Uma e outra medalha, que cunhava Nas pequenas esferas do ouro fino.

De vários caracteres peregrino [De ouro, de diamantes circulado] Jeroglífico ali se vê gravado, Onde a letra em três riscos dividida Tinha estampa entre as outras mais luzida.

Do formoso espetáculo no meio, De júbilos Garcia se vê cheio; As Ninfas o entretêm, Eulina o prende, De Itamonte a grandeza mal entende, E do Moço qual vê rasgando o peito Não sabe a história; que se o doce efeito Provado houvesse do gostoso fruto Que encontrara na Hespéria o Grego astuto, De si, dos companheiros se esquecia, E transportado em outro já se via.

Com a voz descansada lhe falava O bom velho Itamonte: e pois que a brava E inculta região das pátrias Minas Tens pisado, ó Garcia, de ti dignas Sejam tuas ações; tu te atreveste Primeiro que outro algum; e tu pudeste Romper os matos, franquear o passo Do não tentado Rio; o Fado escasso Contigo não será, tendo encoberto Por mais tempo o País que traz incerto O teu grande Albuquerque; ele procura Erguer a Capital, aonde a escura Sombra de um sonho lhe propôs defronte O carregado aspecto de Itamonte. Neste sítio ele está; ali se ajunta Com os fortes Pereiras, e pergunta Por ti: o pátrio Gênio o tem guiado; Deu-lhe a mão, lá opôs, ali prostrado Ele vê a seus pés esse que há pouco,

Levado de um furor insano e louco, Embargar pertendera a sua entrada.

Por muitos anos sei como ignorada Foi aos humanos esta Serra: agora A têm tentado alguns e nela mora Um corpo de Europeus, a quem oculto Tenho ainda os tesouros que sepulto. Permite o Céu que sejas o primeiro, A quem eu patenteie por inteiro Todo o segredo das riquezas minhas. Já desde quando no projeto vinhas De encontrar as preciosas esmeraldas, Eu te esperava deste monte às faldas. O Deus destes tesouros impedia Até aqui descobri-los, e fingia Meu rosto aos homens tão escuro e feio, Porque infundisse em todos o receio.

E pois que a sorte tens de que em meus braços Ele mesmo te ponha; os ameaços Cederão de Itamonte ao teu destino; Vê pois, Garcia amado, o peregrino Cabedal que possuo, e que pertendo Ceda ao teu Rei. Se aos olhos estás crendo, Não é fábula, não, essa grandeza Que tens defronte da preciosa mesa. Toda essa terra, que o descuido pisa Dentro em meus braços, crê que se matiza Com o louro metal, geral o fruto, O nome de Gerais por atributo Estas Minas terão; vês os diamantes: Eles vêm de outras serras mais distantes, Mas tudo corre a encher os meus tesouros;

Hão de brilhar os séculos vindouros Com esta fina pedra; em abundância Vencerão os que vêm de outra distância; [E do Indo será menor a gloria,] Quando vir apagar sua memória, Nas terras onde o Sol iguala o dia, Do meu Jaquitinhonha, a onda fria. Sobre grossos canais ao alto erguidas As correntes do Rio, e divertidas Da margem natural, darão entrada À industriosa mão, que já rasgada Uma penha, e mais outra, faz que a terra Descubra aos homens o valor que encerra. De ti, ó Rei, das tuas Mãos só fio Romper o seio do empolado Rio.

As pedras amarelas, e encarnadas, De que estão essas taças coroadas Produz o Itatiaia; aquele Rio, Que vai buscar com plácido desvio Outro, que do guará, purpúrea ave, Na língua pátria o nome tem suave; [Ele por vários córregos girando] E juntando as correntes, vai formando O grande Rio Doce; de Gualacho Nos futuros auspícios talvez acho Que um pequeno ribeiro o nome guarda. Nas margens suas de nascer não tarda O grato engenho, que decante um dia As memórias da Pátria, e de Garcia; Que levante Albuquerque sobre a Fama, Que a Vila adorne de triunfante rama, E dos pátrios Avós louvando a empresa, Sobre o estrago dos anos deixe acesa A memória defeitos tão gloriosos; Crescei para o cercar, louros famosos.

As safiras azuis produz a Serra Do Itambé; tem rubis aquela terra, Aonde em breves fontes a Juruoca Vê o Rio nascer, que as águas toca Do grosso Paraguai; o Rio Verde Daqui nasce também, que o nome perde,

Entrando pelo Grande; estes unidos Vão formar com mais outros os crescidos E agigantados passos, que desata Pela raia da Espanha o Rio da Prata.

Das esmeraldas ao precioso Erário, Talvez que não permita o Céu contrário Que outro mais que teu Pai registre as Minas. Encobertas serão as pedras finas Por uma longa idade, e fatigadas Serão debalde as serras levantadas Do escuro Caeté, onde se abriga O Botecudo infiel, gente inimiga, Gente fera e cruel, que o sangue bebe Humano, e encarniçado não concebe Zelo algum pela própria Natureza.

Todos estes tesouros e a grandeza De todas estas pedras determino, Que por mão de um benévolo destino Vão buscar inda a Lusa Monarquia. Desde o seio da terra a ver o dia O mármore virá, que aos Céus levante Edifícios soberbos; a elegante Mão do artífice, a Vila edificada, Fará que sobre as outras respeitada De Rica tenha o nome, derivado Dos tesouros o epíteto prezado.

Aqui chegava, e quase enfraquecido Tinha o vigor da voz, quando advertido De Eulina o arrebatado pensamento Com que o grande Garcia olhava atento Para as imagens que pendentes via; Com que igualmente os olhos dirigia Para o Mancebo que rasgara o peito; Tomando a lira, e com suave efeito Soar fazendo as cordas de ouro fino, Em cadências de um número divino De Itamonte lembrava a grande história; Contava que empreendendo por mais glória Os Deuses conquistar deste Hemisfério, Deixando a Adamastor no vasto Império Das ondas lá do Atlântico Oceano, O pacífico mar buscara ufano; Que de um raio de Júpiter ferido Fora em duro penhasco convertido; Que um filho concebera de uma penha, Que foi Ninfa algum dia; ele se empenha Em contrastar de Eulina o peito ingrato; Apolo oposto ao amoroso trato Lha rouba, e leva em uma nuvem; triste O Mancebo infeliz, já não resiste Ao rigor de seu Fado: busca ansioso Sobre um punhal o termo lastimoso De tanta desventura; de piedade Movido o louro Deus, ou de crueldade, Em fonte o converteu, e a cor trazendo Do sangue, que do peito está vertendo, Por castigo maior do fatal erro Sobre ele faz bater o duro ferro. Assim atado ao Cáucaso gelado O ventre vê das aves devorado Em contínuo tormento esse, que intenta

De Apolo arrebatar com mão violenta O raio, de que anima a estátua muda, Que tanto em fabricar seu dano estuda.

Tudo isto canta a Ninfa, e alegre passa A dar à linda voz mais bela graça: Levando o rosto, e os olhos aplicando Para as lâminas de ouro, e reparando Em cada uma, concebe um novo alento; Aqui levanta, e esforça o acorde acento, E como se Itamonte lhe influíra, Do peito do Gigante as vozes tira.