Versos Portuguese Cruz e Sousa A Espada

Portuguese poem

A Espada

by (1861–1898)

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I Cavalheiros, os tempos já passados, De pajens, de canzéis, de fidalguia, De castelos, de reinos brasonados.

Ar cortesão de graça e fantasia Através dos olhares e dos beijos — No silêncio de cada galeria...

Foi nesse bravo tempo dos lampejos De espadas, de punhais e de couraças Por combater frementes de desejos.

No tempo dos floreios e das caças Dos assaltos alegres e bizarros Como as sonoras vibrações das taças.

Em que as almas airosas como jarros, Cheios de vinho espumejante e ardente Eram de glória vencedores carros!

Foi no tempo fidalgo e refulgente, Quando o heroísmo fantasioso amava A linha e a chama de luzida gente,

Que esta cena galharda se passava, Quando um donzel partia para guerra Como a nobreza do solar mandava.

O pai, um tronco transudando a terra, Forte e viril, presença de profeta Que no seu flanco a valentia encerra.

Barbas serenas de bondoso asceta Em cuja alvura doce e veneranda Vê-se a vontade e a intrepidez completa.

Fronte banhada de meiguice branda A que o dever e os ríspidos conselhos Dão sempre a austeridade que age e manda.

Lembra um ocaso de clarões vermelhos, Musgoso, triste, desolado muro, Por onde o luar abre fulgor d’espelhos.

E esse semblante que parece duro, Áspero e torvo, trouxe-o dos combates, Do torvelinho do nevoeiro escuro.

Dos pelouros sanguíneos escarlates, De fogo aberto em turbilhões, vorazes, Dos impulsivos, bélicos rebates.

Mas, bem olhadas, as feições audazes Desse velho patriarca destemido Tinha a suavidade dos lilazes.

Nos olhos, um passado consumido Entre aventuras e colóquios belos Como que faz um verdadeiro ruído...

Sente-se neles noites de castelos Gozadas em amores dadivosos, Em madrigais, em íntimos desvelos.

Cavalgadas, torneios donairosos, Sonho feliz de rica mocidade, Requintes ideais, cavalheirosos.

Tudo se sente na tranqüilidade Desse deus varonil da força antiga Feito com o rijo bloco da Verdade.

Tudo se sente nessa paz amiga Que as crenças do passado às outras crenças Vagas, futuras, para sempre liga.

Tudo se sente vir das névoas densas E da ridente e cândida meiguice Das suas barbas límpidas e imensas.

Sim! tudo da quase criancice Que dão aos homens esses tons nevoentos Da enregelada e trêmula velhice.

Porém, reatando aéreos pensamentos... Comecemos na cena detalhada Que já das eras se espalhou nos ventos.

É nada mais que a história duma espada, História curta, mas interessante Duma espelhante lâmina timbrada.

Não é pelo aço ou lâmina espelhante Que irei contar, pois são comuns os aços, Mas pelo nobre e original rompante.

Pelo ardimento que os primeiros braços Que a manejaram com pujança e brio Nela gravaram, com profundos traços.

II O velho, em pé, atlético e sombrio Diante do filho armado cavaleiro, No aspecto dum leão ruivo e bravio.

Fala-lhe claro, d’alto e sobranceiro, Numa solene e enérgica atitude De quem nos prélios sempre foi primeiro.

O filho, grave o escuta e atende a rude Lhanez estóica de palavra augusta Que dos lábios lhe sai, com tal saúde.

Calmo, sem se mover, firme a robusta Figura solarenga do estoicismo, O velho disse esta nobreza justa:

"Aqui tens esta espada que o heroísmo Dos teus avós honrou nessas campanhas, Com o mais ousado, intrépido civismo.

Freme ainda hoje em convulsões estranhas, Palpita e anseia dentro da bainha Sonhando a luta, as implacáveis sanhas.

Tu, para a teres, como eu sempre a tinha, Num triunfo imortal, quase divino, De gládio que o valor maior continha;

É necessário um grande ardor leonino, Que sejas bem idólatra do nome Que fez de mim o extremo paladino.

A ferrugem, tu vês, o aço consome... Porém, neste aço que ainda aqui fulgura, Se houver ferrugem, tira-a com o renome.

Aqui tens, pois, a lâmina segura, Alma e brasão da nossa velha casa Coberta de ovações, famosa e pura".

Calou-se um instante, como a ave que a asa Fechou no voar, já quase que abatida, Caindo exausta junto a moita rasa.

O filho, mudo e respeitoso, erguida A valente cabeça leal de moço, Formoso estava, porejando vida.

E enquanto o velho, impávido colosso, Calara-se num momento, emocionado Ficara o filho em íntimo alvoroço.

Mas de repente, como iluminado Por um clarão de glórias já extintas, Tornou o velho, aos poucos transformado:

"Podes partir! Porém nunca desmintas Nas pelejas o dom da nossa fama, Por menos força que no peito sintas.

Como um clarim, por toda a parte aclama O vigor deste ferro e do teu pulso No combate que ruja, ulule e brama,'.

E cada vez mais pálido e convulso, Mais nervoso e febril e mais altivo Bradou ainda, num tremendo impulso:

"Se tu, que és da minh'alma o exemplo vivo, Meu filho, tens de ser como um cobarde, Como um vilão abjeto e repulsivo;

Não faças mais de fidalguia alarde, Pega esta espada, meu Afonso, pega E quebra-a de uma vez, que não é tarde.

Pois em lugar de fazer dela entrega Aos sequiosos, feros inimigos Antes a quebre a cólera mais cega.

Ei-la, aqui tens, a leoa dos perigos, Que como outrora em minha mão lampeja Da bravura e da fama nos abrigos.

Se não a tens de honrar nessa peleja Escuta bem, ó meu amado filho, Quebra-a, e o teu nome nem manchado seja.

Como eu faria noutra idade e brilho, Com outras energias musculares, Segue-me tu no denodado trilho,,.

E assim falando, em gestos singulares, E agigantado corpo retesando E um tom sinistro esparso nos olhares;

A cabeça nos ares agitando Numa alucinação, — enorme ereto, Como heróica visão, deblaterando...

Fitando bem o filho predileto, Como se de repente lhe brotasse A força hercúlea dum poder secreto.

O velho, qual um templo que abalasse, A mão crispada, lívida e nervosa, Com todo o esforço a lhe afluir na face, Partiu no joelho a espada vitoriosa.