Portuguese poem
Beijos
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Nesta Tebaida infinita Da vida, na sombra oculto, Eu gosto de olhar o vulto De uma criança bonita.
Porque afinal as crianças, Como eu deslumbro-me ao vê-las, Cintilam como as estrelas, Florescem como esperanças.
Dentro de mim se projeta A luz cambiante dos prismas E batem asas as cismas Qual passarada irrequieta.
E batem asas e ruflam, Pelas artísticas plagas, As auras que as grandes vagas Dos fundos mares insuflam.
E digo, ó mães, se uma aurora Fosse a minh’alma sincera, Os clarões todos eu dera A uma criança que chora.
Porque se a luz fortalece Arbustos e as andorinhas, Também por certo às criancinhas Conforta, avigora, aquece.
E eu que aplaudo e que rimo Tudo isso que a luz se regre, Na vibração mais alegre As criancinhas estimo.
Portanto, assim, sem refolhos Beijando a Olga, beijando Meus sonhos vão, irradiando, Se derramar em seus olhos!