Portuguese poem
Boca Imortal
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Abre a boca mordaz num riso convulsivo Ó fera sensual, luxuriosa fera! Que essa boca nervosa, em riso de pantera, Quando ri para mim lembra um capro lascivo.
Teu olhar dá-me febre e dá-me um brusco e vivo Tremor as carnes, que eu, se ele em mim reverbera, Fico aceso no horror da paixão que ele gera, Inflamada, fatal, dum sangue rubro e ativo.
Mas a boca produz tais sensações de morte, O teu riso, afinal, é tão profundo e forte E tem de tanta dor tantas negras raízes;
Rigolboche do tom, ó flor pompadouresca! Que és, para mim, no mundo, a trágica e dantesca Imperatriz da Dor, entre as imperatrizes!