Portuguese poem
Falando ao Céu
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas! Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho, Todo ele é branco, faz lembrar o linho Dos leitos alvos onde tu te embalas.
A alma do céu é como velhas salas Sem ar, sem luz, como lares sem vinho Sem água e pão, sem fogo e sem carinho, Sem as mais toscas, as mais simples galas.
Sempre surdo, hoje o céu é mudo, é cego... Jamais o coração ao céu entrego, Eu que tão cego vou por entre abrolhos.
Mas se queres tornar jovem e louro Dá-lhe o bordão do teu amor um pouco Fala e vista, com a vida dos teus olhos...