Portuguese poem
I
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Sinto que as tuas mãos são teus olhos vencidos, Teus olhos que esquecendo as orações da luz São claustros apagando os passos esquecidos De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.
Sinto-as tanger ainda os violinos velhos, Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde, Te cegaram de som. E em candelabros arde O teu antigo olhar emoldurando espelhos.
Teus dedos ao bater nas tuas mãos são remos. Inda vejo nas salas do palácio, arfando, As tuas mãos de Dôr entreabrindo as portas.
Buscamo-nos em Côr e quando nos perdemos Passam as tuas mãos em meus dedos, scismando Estátuas de marfim sôbre as arcadas, mortas...