Portuguese poem
*O Elogio Dos Repuxos*
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Dôr dos repuxos ao Sol-Pôr agonisando em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz... Canto da água que desce em poeira, leve e brando, canto da água que sobe e onde o jardim transluz.
Dormem sinos na bruma--a cinza tem affagos... Sombras de antigas náos, velas altas a arfar, passam em turbilhões pelo fundo dos lagos, (a aventura, a conquista, a ansia eterna do mar!)
Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos-- curvos leques a abrir e a fechar num adejo, --mão vencida que vem de vãos incitamentos, mão nervosa que vai mais cheia de desejo...
Volupia de fugir--ser longe e ser distancia, e tornar logo ao cais e de novo partir! Volupia--desejar e não possuir, ser ansia... Repuxos a descer, repuxos a subir...
Não fixar emoções, volupia de esquecê-las, andar dentro de si perdido na memória... (Caçadores ideais de mundos e de estrelas-- repuxos ao Sol-Pôr cheios de magoa e glória...)
Dôr dos repuxos ao crepusculo cantando! desespero, alegria--o labio, a mão... e um beijo. Dôr dos repuxos, dôr sangrando, dôr sonhando-- ir tocar a ilusão e morrer em desejo...