Versos Portuguese Fernando Pessoa *Nossa Senhora De Paris*

Portuguese poem

*Nossa Senhora De Paris*

by (1888–1935)

Listen in the reader

Listas de som avançam para mim a fustigar-me Em luz. Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?... Os braços duma cruz Anseiam-se-me, e eu fujo tambem ao luar...

Um cheiro a maresia Vem-me refrescar, Longinqua melodia Toda saudosa a Mar... Mirtos e tamarindos Odoram a lonjura; Resvalam sonhos lindos... Mas o Oiro não perdura, E a noite cresce agora a desabar catedrais... Fico sepulto sob círios-- Escureço-me em delirios, Mas ressurjo de Ideais...

--Os meus sentidos a escoarem-se... Altares e vélas... Orgulho... Estrelas... Vitrais! Vitrais!

Flores de liz...

Manchas de côr a ogivarem-se... As grandes naves a sagrarem-se... --Nossa Senhora de Paris!...

Paris 1913--Junho 15

*16*

Esta inconstancia de mim próprio em vibração É que me ha de transpôr ás zonas intermédias, E seguirei entre cristais de inquietação, A retinir, a ondular... Soltas as rédeas, Meus sonhos, leões de fogo e pasmo domados a tirar A tôrre d'ouro que era o carro da minh'Alma, Transviarão pelo deserto, muribundos de Luar-- E eu só me lembrarei num baloiçar de palma... Nos oásis, depois, hão de se abismar gumes, A atmosfera ha de ser outra, noutros planos: As rãs hão de coaxar-me em roucos tons humanos Vomitando a minha carne que comeram entre estrumes...

* * * * *

Ha sempre um grande Arco ao fundo dos meus olhos... A cada passo a minha alma é outra cruz, E o meu coração gira: é uma roda de côres... Não sei aonde vou, nem vejo o que persigo... Já não é o meu rastro o rastro d'oiro que ainda sigo... Resvalo em pontes de gelatina e de bolôres... Hoje, a luz para mim é sempre meia-luz...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

As mesas do Café endoideceram feitas ar... Caiu-me agora um braço... Olha, lá vai êle a valsar Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei...

(Subo por mim acima como por uma escada de corda, E a minha Ansia é um trapézio escangalhado...).

Lisboa--Maio de 1914