Versos Portuguese Fernando Pessoa *Neitha-Kri*

Portuguese poem

*Neitha-Kri*

by (1888–1935)

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Ó Noute Immensa pela Immensidão! Recebe em Ti a minha Confissão. Eu Nunca disse ao Verdadeiro, Não! Nem devoro em Remorso o Coração!...

Sou a Grande Rainha Neitha-Kri... Sou Devota da Noute Pensadora... E Neith é grande, pelos Ceus Senhora... E Eu, Sua Filha, Sou Nofrei-Ari!...

Meu Irmão era o Rei Mentha-Suf'reh!... --E Morreu Enlevado em Sonho Ideal D'um Phyltro que Eu lhe dei para tomar!... --Mentha-Suf'reh não Conheceu o Mal --E o Destino Elegeu-me p'ra Reinar Sobre os Milagres do Paiz d'Esneh!...

--Sou a Grande Rainha Neitha-Kri! --Sou Devota da Noute Pensadora --E Neith é Grande! pelos Ceus Senhora! --Sou a Rainha!... Sou Nofrei-Ari!...

--No meu Corpo Divino e Perfumado Tenho a Carne Côr Mate da Belleza Que é Ammarella de Côr e Delicada, Da Côr Loura da Chamma Incendiada... --Tenho o Porte das Damas da Nobreza Nas Formas do Meu Corpo Consagrado!...

--A Thiara Suprema que Investi Coroa a Minha Fronte Sobranceira, Real, Sagrada, Mystice, Altaneira... --E Então--ó Neith--sou Divina em Ti!...

Na Sombra d'Esta C'roa dos Thanitas Palpitam-me no Seio Delicado Anceios de Desejos Escondidos, Mysteriosos, quasi Indefinidos, Mesmo ao Saber do Meu Olhar Velado --Que tu, ó Noute! em Teu Amor Excitas...

O Peitoral Sagrado da Magia Repousa nos seus Ouros Esmaltados, Frio sobre os meus Seios Excitados, Como tacite, Oraculo, do Dia...

--Sob o Pê-chênte Cintural Pendente Sobre o Vigor suavemente Curvo Das minhas Côxas no meu star de Hyerata Que Antros Ardentes e que, Amor, Dilata De um Ardor Fulguroso... porque Turvo... De que Immanencia... de que Immanescente?...

--Ó Noute minha Mãe na Immensidão! --Ó Noute Grande, pelos Céus Senhora... --Scintil d'Estrellas n'Essa Solidão... --Eu, Sobre a Terra, Sou a Vencedora!...

--Erguida nas Sandalias Encurvadas Sou de Pé ante Ti, ó Verdadeira! Dama da Vida, pelo Amor Ungida... Senhora Principal... Dama da Vida! Eu, Tua Padre-Mãe!--a Derradeira... --Entre as Vagas de Incenso a Ti Votadas...

--Meu Olhar é Fulguro docemente, Como se n'este Espelho da Verdade Da minha Alma Polytica de Rei, --N'Aquella Presciencia com que Sei --Se Reflectisse a Minha Lealdade --Ou a Luz d'Algum Astro Transcendente...

--E os meus Braços Frementes Alongados, Cingidos nos Annilos Rictuaes, Têem na Mão o Seter dos Grandes Paes Como as Chaves dos Sellos Reservados...

Sou mais Sabia que os Sabios--Eu emfim --Eu que Sei o Segredo Consagrado Das Filtragens do Lotus Divinal Que Floresce em o Rio de Occidente E que Evoccam o Sonho Absorvente Em que Esquecem--a par da Dor do Mal-- Os Estrangeiros, o seu Lar Deixado... --Que Encontram outro Lar juncto de Mim...

--Meu olhar é Fulguro docemente Em Profunda Dulcissima Certeza Como as Astres do Ceu Immanescente... E Mãe--ó Neith-eu! ó mais que Pura! --Como as Estrellas d'um Fulgor Fremente... --Sou a Ventura Filha da Tristeza D'Esse Teu Medictar Saudosamente...

--E assim como os Astros Fascinantes Geram Fatas as Horas dos Instantes, --Meu Amor--o Sem Fim--gera a Loucura!