Portuguese poem
Esfinge
Sou filha da charneca erma e selvagem: Os giestais, por entre os rosmaninhos, Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos, Desta minh'alma ardente são a imagem.
E anciosa desejo--ó vã miragem-- Que tu e eu, em beijos e carinhos, Eu a Charneca, e tu o Sol, sòsinhos, Fossemos um pedaço da paisagem!
E á noite, á hora dôce da ansiedade, Ouviria da boca do luar O De Profundis triste da saudade...
E, á tua espera, enquanto o mundo dorme, Ficaria, olhos quietos, a scismar... Esfinge olhando, na planicie enorme...
TARDE DEMAIS...
Quando chegáste emfim, para te vêr Abriu-se a noite em mágico luar; E p'ra o som de teus passos conhecer Pôz-se o silencio, em volta, a escutar...
Chegáste, emfim! Milagre de endoidar! Viu-se nessa hora o que não pode ser: Em plena noite, a noite iluminar E as pedras do caminho florescer!
Beijando a areia d'oiro dos desertos Procurára-te em vão! Braços abertos, Pés nús, olhos a rir, a bôca em flôr!
E ha cem anos que eu era nova e linda!... E a minha bôca morta grita ainda: Porque chegáste tarde, ó meu Amôr?!...