Versos Portuguese Francisco Palha Contrariedade

Portuguese poem

Contrariedade

by (1827–1890)

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.......... e nunca teve Hora mais infeliz.....

(V. Exc.ª mesmo).

Cantor das duzias, teu rosto porque é que encobres assim? Quem és tu? Es Arlequim? Es o Furioso de Ariosto? Es o Roberto Pimpim?

És um anão Torquemada com pretensões a Vestal, fructo da copla carnal do author da Besta esfolada e do esfolado animal?...

Não és coisa alguma d'estas? Então, ó santinho, o que és? Pedes p'r'a missa das dez, ou tocas órgão nas festas e dás aos folles co'os pés?

Pela linguagem rasteira comtigo decerto dou. Se pae não és, és avô da que chamas regateira, da propria filha da Angot.

E a neta engeitas?... e á neta condemnas a phrase chã? Que cheira mal a hortelã dizêl-o póde, pateta, a vil cebola albarrã?

É franca? P'ra sempre o seja. Vale mais ter esse dom que ser beato e maçon e berrar que é contra a Egreja colhér e trolha!... Chiton!

Mostra uma perna? Essa é boa! Olhem lá co'o que elle vem! Mostrou uma? Pois tambem você percorre Lisboa mostrando as quatro que tem.

Ó sociedade corrupta!... Ó moralista infeliz!... que viste a perna da actriz e em vez de beber cicuta vaes beber... ao chafariz!

Eu sei que o mundo é doente. Tem um scirro que o corroe. Além d'isso ao fraco heroe doe-lhe inda a raiz do dente que foi arrancar a Alcoy.

Ao mais pequeno symptoma que indique augmento do mal recresce a faina geral. Com papas lhe acode Roma na região temporal;

Dá-lhe sangrias Castella; põe-lhe um cauterio o allemão, emquanto mata o capão e ferve á pressa a panella a Italia no seu vulcão.

Em França a magna assemblea revôlta, ignara, loquaz, discute se é agua raz ou se é forca a panacea n'este momento efficaz.

Seguindo o fraterno impulso, o frio, sizudo inglez chega-se ao leito do endez e diz, tomando-lhe o pulso: Inda não vae d'esta vez.

E o pai da magra Siberia, o grande doutor Moscow, da casa de Deus avô brama:--Pois se a coisa é séria, ó rapazinhos, lá vou.

Mas tu co'os teus alfarrabios e com teu surriso alvar é vêr, apalpar, e... obrar. Podera! Que valem sabios onde apparece o alveitar?...

Assim, receitas á antiga: «Dois grãos de moral... de Adão, que andou nú e foi burlão. Com elles faça uma figa, raspe, e metta de infusão.

«Deite depois disciplinas com ponta de pita e nó. Misture São Pedro em pó, e co'as minhas proprias clinas fomente o enfermo sem dó.

«Note bem. Rigor na dieta de acepipes liberaes. Não cheirar sequer jornaes. Se a cura for incompleta dê-lhe mais... e mais... e mais!»

O mau, o peior, o diabo, ó cego Miramolim, é que essa droga ruim por um triz que já deu cabo do mundo vezes sem fim.

Não faças mais medicina que o tempo gastas em vão; e, se és tolo ou charlatão, grunhe contra a tua sina, mas contra mim, isso não.

Porque andei lá na botica de avantal e braços nús, porque os xaropes compuz, mais e mais se justifica meu tédio pelo alcaçuz.

E se a Nação me deu mama, se ao collo trazer-me quiz, porque estranhas se lhe eu fiz no regaço e p'ra tal ama o que faz todo o petiz?!

Sob a campa que os encerra deixa tranquillos os meus. Não chames, rei dos pygmeus, para as contendas da terra aquelles que estão com Deus.

Do seu tempo honradamente seguiram costume e lei. Com ser do meu provarei que amo a patria, a minha gente, e o seu exemplo imitei.

E se algum, velha maluca, surgisse da eterna paz, de provar-me era incapaz, que os olhos estão na nuca; que o direito é andar p'ra traz.