Portuguese poem
Dedicatória
by Goethe (1749–1832)
Rodeaes-me de novo, aereos vultos, Que á turva vista outr’ora vos mostrastes. Tentarei desta vez aqui reter-vos, E a tal illusão inda propenso Será meu coração? Approximaes-vos! Pois bem, reinae potentes, resurgidos Da vaporosa nevoa do passado; Magico sopro que esvoaça em torno De vós, memorias no meu peito acorda Da juventude e seu sentir ardente.
Trazeis comvosco de bem doces dias A chorada lembrança. Sombras charas Resurgem numerosas; qual antiga Tradicção esquecida, vão volvendo
Primeiro amor, antigas amizades; A saudade cruel com dor recorda A marcha errante que seguiu a vida, E nobres peitos lembra, que frustrados Pela sorte de dias deleitosos, Antes de mim a vida terminaram.
Meus derradeiros cantos não escutam Aquelles para quem cantei primeiro; Dispersa jaz essa phalange amiga, E mudos, ai, os echos despertados Nesse tempo feliz. Minhas endeixas Por entre turba incognita resoam, De quem o louvor mesmo m’entristece; Espalhados, errantes são no mundo Os que meu canto amavam — s’inda vivem.
Saudade, a que já ’stava desaffeito, Daquelles nobres placidos espiritos, De mim se apossa, e qual eolia lyra Só vagos cantos o meu estro entôa; Estremeço, de lagrimas banhado Commovido se sente o peito austero; Como que foge o que possuo agora, Em presente o passado eis se converte.