Portuguese poem
IX (Por quanto amor na terra achou…)
by Goethe (1749–1832)
Por quanto amor na terra achou desprezo ! Pelo fogo do inferno! Quem me dera Cousa peor que praguejar podesse.
Que tens tu? que te morde tanto ao vivo? Uma carranca assim jamais hei visto.
Aos diabos me dera neste instante Se diabo não fosse.
Na cabeça Alguma cousa tens desarranjada ? Fica-te bem berrar como um possesso.
Ora pensa. O ad'reço que trouxera P'ra a Margarida, um padre arrebatou-o!. Mostra as joias á mãe, que occulto medo Sentiu logo n'alma; a tal senhora Tem olfacto mui fino, no seu livro De orações o nariz tem sempre, e cheira Os trastes todos para ver se santos Ou profanos serão. As joiasinhas Logo viu que não eram benzidas. Minha filha, exclamou— bens mal ganhados São da alma grilhões, da paz imigos, Á mãe de Deus as joias consagremos, Que com manná celeste ha de pagar-nos. A Margaridasinha fez careta, E comsigo pensou: cavallo é dado, E um impio não era certamente Quem com tal arte soube aqui trazel-o. A mãe mandou chamar um padre; e este Apenas soube o caso, regalou-se De ver as prendas e fallou dest'arte: «Pensastes muito bem, com muito acerto, Quem se sabe vencer é quem mais lucra. Gosa a Egreja de estomago excellente, Pois que terras inteiras devorando Não teve indigestões ; somente a Egreja
Tem o poder, minhas amadas filhas, De digerir riquezas mal ganhadas.»
Isso é uso geral, o mesmo fazem Os Reis e os Judeus.
E dito isto, Bracelete, collar, anneis e brincos, Tudo levou como se fossem nada; Não auradeceu mais que se lhe dessem Uma cesta de nozes, prometteu-lhes - Recompensas celestes, — e deixou-as Profundissimamente edificadas.
E Margarida ?
Vive em dessocego, Não sabendo que faça nem que queira, Noite e dia pensando no ad'reço, E muito mais em quem lá foi levar-lh'o.
Subel-a magoada desconsola-me, Outro adreço lhe arranja promplamente, Que não era o primeiro gran riqueza.
Pois não! para o senhor tudo é brinquedo.
E anda, faze tudo o que desejo, Com a visinha mette-te, não sejas Diabo de agua doce; eia, outras prendas Para ella me traze.
Hei de fazel-o Do coração, meu generoso amo.
Um tonto assim devéras namorado, Sol, estrellas e lua quei:naria, Para um fogo de vistas dar á amante.