Portuguese poem
I (Philosophia, leis e Medicina)
by Goethe (1749–1832)
Philosophia, leis e Medicina, Theologia até, com pena o digo, Tudo, tudo estudei com louco empenho! E eis-me aqui agora, pobre tolo, Tão sabio como d’antes! É verdade Que sou mestre, doutor, e ha já dez annos Que discipulos levo a meu talante Á esquerda, á direita, ao sul ou norte. Mas conheço que nada nós sabemos! Roe-me isto o coração! Sinto-me acima De mestres e de padres e de escribas, Não me perseguem duvidas nem ’scrupulos, Nem do demonio ou do inferno hei medo;
Mas tambem nunca tenho um’hora alegre! Nem chego a imaginar que haja sciencia Em que devéras creia, nem que saiba Cousa alguma ensinar que aos homens sirva, E convertel-os possa ou melhoral-os. Tambem não possuo eu nem bens, nem ouro, Nem grandezas ou glorias deste mundo; Um cão não supportára uma tal vida! Por isso me entreguei todo á magia Para ver se do espirito as potencias Alguns arcanos revelar-me podem, Por que não haja com suor amargo D’ensinar o que ignoro; o que sustenta Do mundo o interior conhecer logre, Veja as forças activas, veja as causas E cesse o traficar com vans palavras!
Horror! Inda no carcere encerrado! Oh caverna maldicta, tenebrosa, Aonde a propria luz do ceu tão chara, Por vidraças de côr penetra turva! De livros por acervos estreitada, Que roem vermes e a poeira alastra, D’affumados papeis té a alta abobeda Toda coberta; de redomas, vidros, D’instrumentos pejada, accumulados Aqui d’avós os carcomidos moveis — Teu mundo é isto? Chama-se isto um mundo?
Vendo como os espiritos se fallam. Debalde aqui meditação esteril Os sagrados signaes explicar tenta; Que junto a mim voais conheço, espiritos, Respondei pois, se vos é dado ouvir-me.
Ah! que deleite, a vista tal, s’estende De subito por todos os sentidos, E prazer juvenil, sagrado gosto Té á medulla ardentes me penetram! Seria um Deus quem desenhou taes signos, Que a interna tormenta em mim serenam, O pobre coração de paz me enchem E com myst’rioso impulso patenteam Em torno a mim as forças da natura? Serei eu Deus? Tão claro se me torna Tudo; e patente nestes puros traços Vejo ante mim a natureza activa. Agora comprehendo a voz do Sabio: «Não ’stá cerrado o mundo dos espiritos, O coração tens morto e o pensamento! Eia, discipulo, o terreno peito No rubor da manhã banha incansavel.»
Como tudo no todo vai fundir-se, E actuam e vivem uns nos outros
Os seres! Como baixam e remontam, De mão em mão passando-se aureos vasos, Com vôo abençoado empyreas forças Que do ceu pela terra penetrando, Harmonia no mundo infundem todas!
Espectaculo immenso! mas que apenas Espectaculo é. Natura infinda, Onde posso palpar-te? Vós oh peitos, Da vida universal perennes fontes, Donde o ceu e a terra estão pendentes, A que os labios mirrados chegar buscam, Manaes, amamentaes e em vão anceio!
Como este signo em mim diverso influe, Tu, oh genio da terra, estás-me proximo! Já minhas forças mais pujantes sinto, Ardo como de mosto embriagado; Animo sinto d’arrojar-me ao mundo, Da terra os gozos partilhar e as penas, Luctar co’a tormenta, e ao estrondo De naufragio cruel suster o rosto!
Innuvia-se o ar — a lua esconde A luz — desmaia a lampada — vapores Eis surgem — Eis fuzilam rubros raios
De minha fronte em torno. Da alta abobada Desce um pavor que me penetra todo! De mim proximo voas, sinto-o, sinto-o, Oh desejado espirito. — Revela-te! Ah como o seio se me rasga! Como Por novas sensações os meus sentidos Todos anceam. A ti todo entregue Sinto meu coração. Alfim mostrar-te É força, embora a vida isso me custe!
Quem me ousa evocar?
Semblante horrendo!
Com força me attrahiste, á minha esphera Longo tempo aspiraste, e agora —
Sinto Que teu aspecto supportar não posso!
Por olhar-me de perto, ancioso choras,
Por escutar-me a voz, por vêr-me a face; De tu’alma ao clamor possante acudo E eis-me aqui! Que miseravel mêdo De ti, mais que homem, se apodera? Onde Está da alma o grito, aonde o peito Que em si pôde crear, suster um mundo, Que intumeceu, tremendo de alegria, Té elevar-se á altura dos espiritos? Onde estás, Fausto, a quem ouvi os brados E aspiraste a mim co’as forças todas? És tu que de meu halito cercado, Qual encolhido verme, temeroso, De teu ser até o intimo estremeces?
Hei-de ceder-te a ti, vulto de chammas? Sou eu, sou Fausto, teu egual me julgo.
No mar da vida, no volver dos factos, Abaixo, acima boio, Aqui e alli vagueio! A morte, o nascer, Um pelago eterno, Tecido cambiante, Brilhante viver, Assim do tempo no tear ruidoso, Vivente manto á divindade teço.
Tu que o mundo vastissimo circumdas, Quam perto sou de ti, potente espirito.
És egual ao espirito que entendes, A mim não!
A ti não? à quem pois posso Egualar eu, da divindade imagem, Se nem a ti?
Oh morte! eis o meu famulo! Em nada se tornou meu summo encanto! Ha de vir perturbar este importuno, Este seccante, apparições tão plenas!
Perdoae, mas ouvi que declamaveis; Lieis talvez uma tragedia grega?
Dess’arte um pouco eu aprender quizera, Pois possue hoje em dia grande peso. Ouvi dizer que bem podia um comico A qualquer prégador servir de mestre.
Sim, póde ser, se o prégador for comico.
Ai! quem vive encerrado em sua cella, E só lá n’um Domingo avista o mundo, E mesmo assim de longe, por um oculo, Mal póde a arte ter de convencel-o!
Se a fundo não sentís, jámais a tendes, Se do intimo d’alma vos não brota E com espontanea, poderosa força, Os corações não vence dos ouvintes. Estudae sem cessar, grudae palavras, Dos restos d’outrem cosinhae um prato, Do acervo de cinzas que juntardes Chammas mesquinhas assoprae a custo! Pasmo sereis de bobos e creanças, Se ao vosso paladar isso se ageita; Mas corações não ganhareis vós nunca, Se o proprio coração vos ficar mudo.
Porém a exposição faz a fortuna Do orador; comquanto bem o sinta Longe estou d’alcançal-o.
Lucro honesto Buscae sómente, e não façaes de bobo Cascaveis agitando. O senso recto, O claro entendimento, por si mesmos Sem muit’arte s’expoem. Pois se tiverdes Que dizer cousas serias, é preciso Excogitar palavras? Sim, os vossos Discursos reluzentes, ostentando Ante os ouvintes enfeitados nadas, Aridos são como o vento d’outomno Que nas folhas mirradas rumoreja.
Valha-nos o Senhor, a arte é longa E nossa vida curta. Angustiados Peito e cabeça em meus trabalhos criticos, Bastas vezes eu sinto. Quanto custa Os meios conseguir que ás fontes guiam! Inda um pobre diabo não alcança Da senda o meio, quando o leva morte.
É pergaminho o manancial sagrado Donde brota p’ra a sede eterno liquido? Se te elle não manar da propria alma Conforto não terás.
Perdoae; delicia Infinda é ao espirito dos tempos Poder-se transportar, vêr como antes De nós pensaram sabios e quam longe O progresso recente altivo chega.
Bem longe, sim, té ás proprias estrellas! Os tempos que passaram, meu amigo, Um livro são p’ra nós de septe sêllos; O que chamaes espirito dos tempos D’alguns senhores vem a ser o espirito, Em que os tempos s’espelham. Muitas vezes Lastima é, de que á primeira vista Enojado se foge. Ou vil monturo, Ou pejado armazem de velhos trastes, Ou solemne e gravissima comedia, Com excellentes maximas pragmaticas, De titeres na boca bem cabidas!
Porém o mundo, a mente e o peito humano Quem não desejará vir a entendel-os?
Pois sim; aquillo que entender se chama! Quem sabe o proprio nome dar ás cousas? Aquelles que jámais o comprehenderam E que insensatos, descobrindo: o peito, Pensar e sentimento á turba abriram; Na fogueira e na cruz o tem expiado. Amigo, desculpae, vai alta a noite, É mister desta vez interromper-nos.
Velara de bom grado ind’algum tempo Só por tão doutamente conversar-vos, Mas ámanhã, santa manhã de Paschoa, Uma ou outra pergunta permitti-me. Com zelo ao estudar me hei dedicado, Sei muito, mas quizera saber tudo.
Como não foge toda a espr’ança á mente Que á apparencia insipida se apega, Que com avida mão busca thesouros E satisfeita fica, achando vermes!
De tal homem a voz resoar ousa Onde espiritos mil me circumdaram? Mas ai! que desta vez graças te rendo, Tu dos filhos da terra o mais mesquinho. Vieste arrebatar-me ao desespero, Que a razão destruir-me ameaçava. Ai, que a apparição foi tão gigante, Que misero pigmeu me achei ante ella!
Áquelle impulso obedecer me cumpre? Ai, que nossas acções, quaes nossos males, De nossa vida á marcha põem tropeços.
Que vivendo no pó, delle nutrido, Do caminhante o pé mata e soterra.
Antigos utensilios, que não uso, Jazeis aqui porque a meu pae servistes; E tu, polé vetusta, ennegreceste Tanto ha que na banca tem ardido A amortecida lampada. Mil vezes Antes a pobre herança haver disperso, Do que penar aqui com este pouco Opprimido. O que herdámos d’avoengos É mister que o gosemos p’ra ser nosso! O que não se approveita é grave carga, E só nos serve o que o momento off’rece.
Brilha a meus pés das ondas o espelho, Uma luz nova attrahe-me a novas praias.
Quando de mão em mão passavas cheio. De teus ornatos a riqueza artistica, Do conviva o dever de descrevel-os Em rima, e teu licôr beber de um golpe, Noites de juventude á mente trazem. A mão amiga não te passo agora Nem meu ingenho em descrever-te ostento: Bebida é esta que embriaga prompto, Com ondas pardas o teu seio enche. Este ultimo trago, preparado E escolhido por mim, beber desejo Como brinde festivo, saudar ledo, Do fundo de minh’alma à manhã bella!
Resurgiu Christo! Jubilo, mortaes, Que perniciosas, Occultas, damnosas Faltas herdaes.
Que profunda surpreza, que som claro Com força o calix de meu labio arreda? Já vós annunciaes, oh campanarios,
Da gran festa paschal a hora primeira? O consolador hymno entoaes, coros, Que de labios angelicos na noite Do sepulchro soou, nova alliança Confirmando do homem com o Eterno?
Com myrrha e aromas O embalsamámos, Em pannos alvissimos O amortalhámos, Nós suas fieis Aqui o sepultámos; Ai de nós que o Christo Já não encontramos,
Resurgiu o Christo, Bemdicto o amor, A que a provação Que turva a razão, Não quebra o fervor.
Porque desceis ao pó para buscar-me Vós, oh hymnos do ceu, meigos e fortes? Ide soar onde ha corações brandos. A boa nova ouço e falta a crença;
O milagre é da crença o filho amado. Não me attrevo a aspirar a essas espheras Onde retumba a nova abençoada; E comtudo a este som, da infancia affeito, Sinto-o agora revocar-me á vida. Outr’ora do amor divino o osculo, Do dia do Senhor nas horas graves, Descia sobre mim; do campanario O tanger tão presago me soava E era uma oração, almo deleite; Um ineffavel mas bem doce anceio A vaguear nos bosques m’impellia, E por entre mil lagrimas ardentes, Sentia-me surgir no peito um mundo. Da juventude os jogos prazenteiros Annunciava est’hymno, o prazer livre Da louçan primavera; ora saudosas Recordações e um sentir d’infante, Do passo ultimo e grave me desviam. Resoae, resoae, celestes hymnos! Lagrimas verto, recobrou-me a terra!
Já o sepultado Vivente, exaltado Aos ceus remontou; A vida já gosa, No crear s’encerra;
E nós, ai, jazemos Mesquinhos na terra. A nós que seus somos Saudosos deixou; Tua dita, oh mestre, Quem não invejou!
Resurgiu Christo, A morte venceu; Exultae que a todos Liberdade deu. Vós que o louvaes, Amor lhe mostraes, Aos irmãos valeis E prégando andaes, Salvação é o premio Que o mestre dá, Exultae que sempre Com vosco estará.
Para que vão vocês por esse lado?