Versos Portuguese Gonçalves Crespo A Morte De D. Quichote

Portuguese poem

A Morte De D. Quichote

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Ao Conde de Sabugosa

Rôto o escudo, sem lança, a cóta escalavrada, Sósinho, abandonado e á tôa como um cego, Do crepusculo á luz dolente e immaculada Entra na sua aldeia o altivo heroe Manchego.

O tenue fumo sáe do côlmo das herdades, Riem ao pé da fonte as frescas raparigas, E á clara vibração sonora das trindades Junctam-se brandamente as vozes e as cantigas.

E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte, Que andára pelo mundo a combater os máus, Defendendo a Mulher, desafiando a Morte, Do paterno casal sentou-se nos degráus.

Nos joelhos fincando o cotovêlo agudo E no punho cerrado a fronte reclinando, Quedou-se largo espaço, illacrymavel, mudo, Para o inutil passado os olhos alongando...

E ali, na dôce paz da sua alegre aldeia, Sentiu que o avassallava uma tristeza infinda, Quando esta voz se ouviu: «morreu-te a Dulcinêa, Missionario do Bem, tua missão é finda!»

E elle a ouvir e a scismar! A trefega sobrinha Beija-o, falla-lhe, ri, abraça-o, mas o Heróe Dest'arte lhe volveu «A morte se avisinha, Levae-me para o leito!» E ouvil-o pena e dóe.

Do leito á cabeceira o Bacharel e o Cura Tentam resuscitar-lhe os sonhos e as chymeras; Pintam-lhe o negro Mal triumphante, ó amargura! O fraco aos pés do forte, o bom lançado ás féras...

Contam-lhe o frio horror dos carceres sem luz. Que nas tôrres feudaes pompeava o velho Crime. Que os crescentes do Islam tinham vencido a Cruz, Que a Injustiça era a Lei... Então feroz, sublime.

Inquieto, semi-nú, sinistro, o cavalleiro Bradou como um trovão: «Enverguem-me a loriga! «Sellem-me o Rocinante, ó Sancho, ó escudeiro, «Traze-me a lança, présto! e a minha espada amiga!»

Tinha em brazas o olhar, e truculento o aspeito, E vibrava em redôr a imaginaria lança... Logo depois cahiu do respaldar do leito, Morto: tendo no labio um riso de creança!