Portuguese poem
Estudantina
Acorda, minha Thereza, Descerra a janella tua! Espalha-se a luz da lua Pela poetica deveza... Entre os sinceiros da margem Murmura o claro Mondego, A noite corre em socêgo... Acorda, minha Thereza!
Não dorme quem tem amôres, E o teu postigo é cerrado! Deixa o leito perfumado, E o travesseiro de flôres, Se queres que eu acredite, Ó minha pallida amiga, Nas palavras da cantiga: «Não dorme quem tem amôres!»
Por isso eu vélo cantando, E esta guitarra suspira, E o meu coração delira Mal vem a lua apontando... É que, á noite, lirio branco, Os astros guardam segredo Dos beijos dados a medo... Por isso eu vélo cantando...
Quero vêr-te, como outrora Nesse postigo inclinada, Conversando enamorada Até ao raiar da aurora... Um lenço posto no liso Dos teus hombros jaspeados, Os cabellos destrançados... Quero vêr-te como outrora.
Não te assustes, Julieta, Que a manhã te encontre ainda Bebendo a canção infinda Que soluça o teu poeta. Cantará de entre os loureiros Uma alegre cotovia, Mal venha rompendo o dia... Não te assustes, Julieta!
Mas dorme a branca Thereza, Cerrada a janella sua; Espalha-se a luz da lua Pela poetica deveza... Entre os sinceiros da margem, Murmura e corre o Mondego, Que tristeza e que socêgo! Ai! dorme, dorme, Thereza!