Versos Portuguese Gonçalves Crespo Nunca Eu Te Lêsse, Ballada!

Portuguese poem

Nunca Eu Te Lêsse, Ballada!

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Suspende a dura sentença Que de teus labios ouvi. E ergue do chão os quebrados Teus negros olhos magoados, Quando me acerco de ti.

Ergueste-os, encantadôra! Mas antes do teu perdão, Attende-me, e ouve, senhora, Com todo o teu coração.

Escuta: «A um rei namorado «Sincera e fiel amante, «Ao morrer, tinha deixado, «De antigo affecto em penhor, «Cinzelada taça de ouro «Do mais subido valor.

«O rei preferia a tudo «Aquella doce lembrança «Que lhe trazia os arômas «De umas fluctuantes cômas, «E de uns labios de veludo, «Que elle beijára em creança.

«Toda a vez que elle bebia «Por esse vaso sagrado, «Uma extatica alegria «Como flôr ideal sorria «No seu turvo olhar cançado.

«Um dia sentiu-se o pobre «Mais triste, velho e abatido, «Abraçou-se commovido «Á taça, o tremulo amante:

«E as lagrimas, uma a uma, «Deslisaram nesse instante «Nos rudes flócos de espuma «Da longa barba fluctuante.

«Naquella hora de agonia, «Chamou seus filhos e herdeiro, «Deu-lhes tudo o que possuia, «Ouro, palacios, riquezas, «O seu castello roqueiro, «E as suas largas devezas.

«Dividiu tudo, contente; «A taça guardou sómente.

«Sentindo fugir-lhe a vida, «Manda o triste convidar «Seus pares, filhos e herdeiro «Para um festim derradeiro «No castello sobranceiro «Ás verdes aguas do mar...

«Em meio da festa, o velho «Ergueu a taça e, sorrindo, «Embebido o olhar no infindo, «Um frouxo canto soltou...

«E mal o canto findára, «No leito da onda amara «A taça de ouro lançou...»

Eram profundos ciumes Os d'esse rei namorado, Que não fosse alguem beber Por esse vaso sagrado, E viesse a conhecer Os cariciosos perfumes Que o tinham embriagado...

Hontem, á tarde, beijando-a De teu labio a viva rosa, Lembrou-me a historia singela D'essa ballada amorosa; E dentro em mim de repente Tam extranha dôr senti, Que num impeto demente De teu labio humido e ardente Com tôrvo aspecto fugi!

Lembrou-me, cabeça louca! Que se eu acaso morresse, Talvez um outro sorvesse Os beijos da tua bôcca...

E no azul indefinido, Ó minha piedosa anémona! Cuidei ouvir o gemido Da moribunda Desdemona...

Ai, desavisado amôr! Perdôa, sombra adorada! Nunca eu te avistasse, flôr! Nunca eu te lêsse, ballada!