Portuguese poem
O Minuête
Ao dr. Thomaz de Carvalho
Espaçoso é o salão: jarras a cada canto; Admira-se o lavôr do tecto de páu sancto.
Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias: Um enorme sophá: largas tapeçarias.
O purpureo tapete aos olhos nos revela Entre as garras de um tigre anciosa uma gazella.
Retratos em redor: olhemos o primeiro: No Tóro as mãos de Affonso o armaram cavalleiro.
Era Arcebispo aquelle: esta foi açafata... Que frescura sensual nos labios de escarlata!
Olhos revendo o azul que sobre a Italia assoma: Em finos caracóes, a loura e ondada côma:
Collo robusto e nú: cabeça triumphante: Consta que certo rei... passemos adeante!
Este, que vês, morreu num africano areal Por vingança cruel do aspero Pombal.
D'esse olhar na expressão infinda e inenarravel Desabrocha uma dôr profunda e inconsolavel.
Defronte, uma donzella, o rosto meigo e afflicto, Num extasis adora o pallido proscripto.
O teu sonho nupcial, franzina morgadinha, Tam cedo se desfez, ó misera e mesquinha!
No burel escondeste o viço e a formusura, E desmaiaste, flôr, no chão de uma clausura!...
Repara nos desdens do fôfo conselheiro, Que sorridente aspira a flôr de um jasmineiro!
Em canones doutor: no Paço foi bemquisto: Orna-lhe o peito a cruz de um habito de Christo.
Esse outro combatendo ás portas de Bayona, Como um bravo, alcançou a rútila dragôna.
Vibra flammas do olhar; cabeça erecta e audaz; Illumina-lhe o rôsto a gloria de um gilvaz.
Assistímos, ao vêl-o, ás pugnas carniceiras, E ouvimos o clangôr das musicas guerreiras...
No antiquissimo espelho, á sombra das cortinas, Reflecte-se o primôr de argenteas serpentinas.
Sob o espelho se aninha um cravo marchetado, Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
Ao lado um cofre encerra, em amoravel ninho, Antiga partitura em velho pergaminho.
Uma noite extendi a musica na estante, E o cravo suspirou... naquelle mesmo instante
Da eburnea pallidez doentia do teclado Manso e manso evolou-se o arôma do passado.
E vi descer do quadro a languida açafata Que, ao discreto pallôr das lampadas de prata,
A fimbria alevantando azul do seu vestido O rôsto acerejado, o gesto commovido,
A sorrir, deslisou graciosa no tapête, Dançando airosamente o airoso minuête...