Portuguese poem
As comédias se acabaram
by Gregório de Matos (1636–1696)
As comédias se acabaram a meu pesar, e desgosto, pois para ter, e dar gosto tomara eu, que começaram: bem os mirões se admiraram, e por caminhos umbrosos iam dizendo saudosos, e cheios de admiração, bem haja esta geração de Pissarros, e Cardosos.
Não me esquecera em meus dias a boa arte, e disciplina, com que a Madre Celestina fazia as feitiçarias: nas suas astrologias usava de tais cautelas, que diziam as Donzelas, o Gregório em todo o caso por evitar um fracasso domina sobre as estrelas.
Dizem, formosas, e feias mulheres de todo o estado, que o Carvalho no tablado chove-lhe a graça às mãos cheias: ele é velhaco de meias, ora santo, ora velhaco, e eu, que o vi vestido em saco, disse logo espavorido. basta, que foi Deus servido fazer um santo de um caco?
Não me esqueça o Azevedo, porque posto no tablado rebertolou de atinado, porque ora é manso, ora azedo: a nenhum outro concedo ser homem tão peregrino, tão geral, e tão divino, pois a dizer me provoca, que traz por língua na boca as folhas do calepino.
Ninguém o pode entender, e eu muito menos o entendo, e só ele compreendo, que o não posso comprender: o que tem, que agradecer, é o prazer, e o bom ar, com que se vem ofertar, porque em todas as jornadas quer, que lhe dêem as pancadas, porém não as quer levar.
Ele é um lindo rapaz, e o primeiro filho de Eva, que dá gosto, quando leva muito mais que quando traz: mas o Carvalho sagaz, que lhe sabe das manqueiras, lhe sacode as costaneiras, porque quando desentoa, dá-lhe uma má, e outra boa com talos de bananeiras.
Inácio é grande estudante, e nos mostrou tão bom fio, que do seu jeito confio, que há de ser grande farsante: para moço principiante nos deu bastante regalo, e nas comédias, que falo, como nas mais, que hão de haver, a muitos há de exceder sim por vida de Gonçalo.
Veio a festa a se acabar, e eu, que lhe vim assistir, estou cansado de rir, mais do que de trabalhar: agora entendo passar à Catala, que é buçaco, porque em lugar tão opaco a todos dê, que entender, depois das comédias ver, ir vê-las por um buraco.