Portuguese poem
Cansado de vos pregar
by Gregório de Matos (1636–1696)
Cansado de vos pregar cultíssimas profecias, quero das culteranias hoje o hábito enforcar: de que serve arrebentar, por quem de mim não tem mágoa? verdades direi como água, porque todos entendais os ladinos, e os boçais a Musa praguejadora. Entendeis-me agora?
O falar de intercadência entre silêncio, e palavra, crer, que a testa se vos abra, e encaixar-vos, que é prudência: alerta homens de Ciência, que quer o Xisgaravis, que aquilo, que vos não diz por lho impedir a rudeza, avalieis madureza, sendo ignorância traidora. Entendeis-me agora?
Se notais ao mentecapto a compra do Conselheiro, o que nos custa dinheiro, isso nos sai mais barato: e se da mesa do trato, de bolsa, ou da companhia virdes levar Senhoria mecânicos deputados; crede, que nos seus cruzados sangue esclarecido mora. Entendeis-me agora?
Se hoje vos fala de perna, quem ontem não pôde ter ramo, de quem descender mais que o da sua taverna: tende paciência interna, que foi sempre D. Dinheiro poderoso Cavalheiro, que com poderes iguais faz iguais aos desiguais, e Conde ao vilão cad'hora. Entendeis-me agora?
Se na comédia, ou sainete virdes, que um D. Fidalgote lhe dá no seu camarote a xícara de sorvete: havei dó do coitadete, pois numa xícara só seu dinheiro bebe em pó, que o Senhor (cousa é sabida) lhe dá a chupar a bebida, para chupá-la num'hora. Entendeis-me agora?
Não reputeis por favor, nem tomeis por maravilha vê-lo jogar a espadilha co Marquês, co grão Senhor: porque como é perdedor, e mofino adredemente, e faz um sangue excelente a qualquer dos ganhadores, qualquer daqueles Senhores por fidalgo igual o adora. Entendeis-me agora.