Portuguese poem
Clóris, nas festas passadas
by Gregório de Matos (1636–1696)
Clóris, nas festas passadas que às virgens são prometidas houve quadrilhas corridas parentas de envergonhadas: porém estas realçadas vi neste ano derradeiro: pois na esfera do Terreiro aparecia um Brandão, que correndo exalação, acabava cavaleiro.
Com estas aparições de cometas tão luzidos, nos mirões espavoridos eram tudo admirações: em máximas conjunções de ouro, de prata, e de cores, notei que os Festejadores faziam com graças sumas no ar um jardim de plumas, e na terra um mar de flores.
Sua Excelência assistia, o Conde, e toda a Nobreza, e os padres por natureza lhes faziam companhia: estava sereno o dia, a esfera toda anilada, a água do mar estanhada, brando o vento e lisonjeiro, e contudo no Terreiro houve muita carneirada.
Enfim a festa passada tão cheia de cavaleiros, se a fizeram dois Barbeiros, não seria mais sangrada: ali vi dar cutilada, que todo o vento dissipa, do bruto, que a participa, e eu disse, pasmado e absorto, que a catana era do Porto, por rilhar sempre na tripa.
Logo e da primeira entrada houve jogo de manilha, que para isso a quadrilha pêlo lindo era pintada: quem lhe dava uma encontrada, tudo então nos agradava, pois conforme ouvi julgar ali entre dar, e levar pouca vantagem se dava.
Cada qual sem mais tardança, à dama a quem mais se aplica, levou na ponta da pica, o que ganhou pela lança: até o Padre Hortolança, digo, o Cônego Gonçalo, se logrou deste regalo: eu só na baralha ingrata, não vi manilha de prata, que na de ouros já não falo.
Ao Marinho generoso o dia franco, e escasso concedeu-lhe o Galanaço recatando-lhe o ditoso: e visto que por airoso é o Adônis da quadrilha Zundu se lhe rende, e humilha, dando-lhe (porque o conforte) no cravo a primeira sorte, a segunda na manilha.
Barreto alheio do susto, que não implica amostrado nem ao forte o asseado, nem ao galante o robusto: luzimento a pouco custo, bom ar sem afetação, foi julgado, em conclusão, que a destreza o não desvela, pois sem cuidado na sela, caía no capressão.
Muito Eusébio se desvela em correr mais que ninguém, e por correr sempre bem nunca se assentou na sela: como há de sentar-se nela, se correr só pertendia tão propriamente o fazia, que se assentar, e correr não podem juntos caber, não se assentava, corria.
O valeroso Muniz em gala, cavalo, e arreio, quanto ganhou pelo asseio, o perdeu pelo infeliz: o que eu vi, e a terra diz, é que de muito adestrado, andou tão aventejado, que a voz do povo levou, com que desde então deixou o Povo mudo, e pasmado.
Outro Muniz valentão o fez tão perfeitamente, que sendo em sangue parente era na destreza Irmão: pelo forte em conclusão deixou de si tal memória, que por sua, e nossa glória, (deixando aos demais em calma) fez pouco em levar a palma, sendo filho da Vitór
Do Bolantim a cavalo dizia o Povo gostoso, que era da festa o gracioso, e eu digo que era o badalo: quem chegou a ponderá-lo correndo sobre a Rucina, revirar a culatrina, perni-aberto para o ar, a que o pode comparar mais que a um sino que se empina?
Ao Araújo famoso no princípio da carreira, resvelou-lhe a dianteira o cavalo furioso: cego, arrojado e fogoso, entre uns baetas meteu-se: quem sentado estava, ergueu-se: porém o baixel violento como ia arrasado em vento, deu nuns bancos, e perdeu-se.
Caído o moço infeliz, houve grita e alarido, sendo que cai o entendido em tudo, que se lhe diz: ergueu-se em menos de um triz, e pondo-se na vareda correu com cara tão leda, que causou admiração em todos; porque já então tinha ele com todos queda.
Um sobrinho do Frisão ao cheiro acudiu dos patos, porque é em públicos atos mui ousado um patifão: presa a rédea a um arpão, nos estrivos dois arpéus pus eu os olhos nos céus, e disse que bem podiam louvar a Deus, os que viam a cavalo um Louva-Deus.
Uma aguilhada por lança trabalhava a meio trote, qual o Moço de Dom Quixote, a que chamam Sancho Pança: na cara infame confiança, na sela infame perneta, e com tramóia discreta, ia sobre o seu jumento pelo arreio, e nascimento à bastarda e à gineta.
Ele andou tão desestrado, que para dar-lhe sentido o cavalo era o corrido, e ele o desavergonhado: estava o Frisão pasmado de gosto babando o freio, por ser de razão alheio ver-se com tão pouco abalo não no centeio a cavalo, mas no cavalo o centeio.
A este filho universal, com três Pais e três Padrastos todo vestido de emprastos, se emprastado o mesmo val: se seguia um cirragal, de quem tomavarn modelos para a corcova os camelos, cuja perna dobradiça sempre a memória me atiça da rua dos cotovelos.
No Menino Ascânio falo, que o Pai Enéias a murro devendo de o pôr num burro o deixou pôr a cavalo: este menino ia ao galo e encontrou-se co'a galhofa, onde servira de mofa, os dias, que ali gastara, se um braço lhe não quebrara, e o mandaram numa alcofa.
Lá vem o Chico às carreiras dando esporadas cruéis, numa sela de arambéis vestido de bananeiras: nas Laranjadas primeiras teve tão adversa estrela, que caiu na esparrela, não como Rola, em verdade, porque a queda foi de frade, pois logo agarrou da sela.
Às festas não deu desmaio nenhum destes entremezes, que não há ouro sem fezes, nem comédia sem lacaio: qualquer correu como um raio e fez sua obrigação, exceto o boi do sertão, sendo, que alguém lhe cobiça o resistir à justiça, e dar co'a forca no chão.
O lindo Eusébio da Costa escrivão das onze mil, por assombrar o Brasil fez tudo de sobre-aposta: cos passados deu à costa, e excedeu a toda a lei: e assim eu sempre direi hoje e em toda a ocasião, que o ser por Costa Reimão he vem por ter mão de Rei.