Versos Portuguese Gregório de Matos Era a Dominga primeira

Portuguese poem

Era a Dominga primeira

by (1636–1696)

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Era a Dominga primeira desta quaresma presente, já eu estava na praia, seriam seis para as sete. Estava o dia formoso por ser hora, em que se veste a esfera de azul, e ouro com seus renglaves de neve. A aurora teve bom parto, pois botou em tempo breve um menino como um sol para alegria das gentes. Gritei eu: ah Sor Gregório, ele desperto gritou, aqui estou, e Sor Silvestre. Só falta o Pissarro moço: já foi chamá-lo o moleque, e em se juntando conosco estamos prestes, e lestes. Toda a noite não dorrni com pensamento no beque, que há de levar-nos à ilha, onde façamos um frete. Não tem, que me despertar, que eu escuso, me despertem, porque para esta viagem estive de acordo sempre. Os três à praia chegaram, e eu no bergantim co'a gente mandei embarcar a todos um por um, ele por ele. Botamos a Nau no mar um bergantim excelente nos nossos mares nascido obra do estrangeiro mestre. O alforje lá me esquecia, disse eu, e a vocês lhes esquece: mandei logo um negro à casa, que fosse num pé, e viesse: Veio logo carregado o negro com uma serpe de bananas, e farinha, e al não disse o tal negrete. Fomos, e dobrando o mangue encontrarnos um banquete, em que vem Miguel Ferreira cercado de muita gente. Allons, allons, lhe dissemos, e ele nos disse: salvete, trespassamos o saveiro, que ia então vendendo azeite. Fomos à costa correndo, e ajudados da corrente de Chico o porto tomamos, que estava manso, e alegre. Tocou-se logo a trombeta, que um búzio era potente, um sinal de haver chegado a capitânia do Ostende. Deu-nos uns poucos de apupos, e vendo, que Chico desce, embarcou-se, e socorreu-nos com China, e melado quente. Fomos seguindo a viagem tão folgazões, tão alegres, que até as duas guitarras iam folgando de ver-se. Assim chegamos à Ilha, e sobre areias de neve dezoito chancas saltavarn, com que a Ilha se estremece. Perguntei por Esperança, e soube, que estava ausente. Chico, que entonces servia de guia dos nossos fretes. Quis-me eu então repelar, tendo pouco, que repele, disse mal da minha vida, de mim mesmo maldizente. Corremos a Ilha toda, por sinal, que o bom Silvestre fez um letreiro na areia, cuja letra isto refere. "O Senhor da Ilha é um Asno" e foi disto tão contente, como se no tal letreiro uma asneira não fizesse. Nós lhe estranhamos a asneira, e ele arreganhando os dentes, a celebrou como sua, por não ter, quem a celebre. Achamos uma Mulata, que estava ali num casebre, que eu não fretei, por ser Nau já carregada por prenhe. Tornamo-nos a embarcar algum tanto descontentes, porque em toda a Ilha achamos dois maracujás somente.